Atenção, mundo: as crianças vão crescer
O vídeo foi feito no início do ano pela agência inglesa PHD. Intitulado “We are the future”, ou “Nós somos o futuro”, mostra uma série de crianças-pre-adolescentes falando, em resumo, que em 10 anos elas terão crescido e dominado o mundo (que é o que fazem, no fundo, todas as gerações com 10 anos de idade quando chegam aos 20).
Foi feito para ser exibido e discutido em congressos publicitários, mas acabou chegando às redes sociais e se dividindo entre encantar e horrorizar.
Encantar porque escancara sem nenhum melodrama juvenil (salvo a irônica musiqueta de fundo) a já chamada “geração Z” – nascida de 1990 pra cá e que sucede a ainda nem desvendada geração Y (os jovens hoje de 20 a 30 anos).
Mas horrorizou pelo ar quase tétrico de suas criancinhas nem bonitas e um tanto inquisidoras na hora de apontar o dedo para os fazedores de marketing. “Nós não vamos apenas assistir seus anúncios, mas vamos esperar conteúdo inteligente e personalizado baseado.. em mim.. em mim.. e em mim!,” elas dizem. “E não ultrapassem os limites”, dizem ainda. “Ou então iremos te bloquear.”
O negócio ganhou até uma reposta irônica, com Tom Hanks, Penelope Cruz e tudo, chamando a atenção pro tamanho da alienação que a coisa preconiza.
Pode parecer, de fato, uma filosofia um tanto consumista, egocêntrica e agressiva para se conceber na boca de nossas sempre tão puras crianças. Mas vale lembrar: é com as empresas que elas estão falando; e que, como sabemos, são bem menos puras que crianças.
E, vale lembrar 2 – estes jovens adultos crescem em um mundo bastante diferente das longínquias décadas de 90 e 80, quando consumo e propaganda eram ainda uma mão de via única e, como tal, aí sim, uma mera questão de ter ou não ter; as duas únicas opções do mercado até então.
“Você não tem ideia do que será o iPhone de 2021″, diz uma das meninas.
O iPhone, e o mundo, de 2021. Eu, pelo menos, não tenho mesmo. Um misto de falta de ideia com uma enorme curiosidade de saber até onde iremos chegar.
Em tempo: alguns clássicos infantis do obsoleto século 20 e que mostram o potencial que tantas outras gerações de crianças tiveram também para ser tétricas.
“Não esqueça minha Caloi”! Uma campanha nacional ensinando técnicas de como influenciar adultos em prol de suas vontades.
“Cooooompre batoooooom…” Destaque para os olhos arregalados:
E a incrível e sintetizadora “eu tenho você não tem”, que causou um reboliço em 1992 entre pais horrorizados e crianças deprimidas por não terem uma tesoura. A peça foi até proibida:
E aí. Qual geração você escolhe?
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Infância, Walt Disney e velhice
Carta a Washington Olivetto
Únicos
Com Carlos Valim
Que o Brasil sempre foi um tanto quanto tosco na hora de traduzir os títulos de filmes lançados aqui, todos já sabemos.
Dos anos 80 para frente, principalmente – quando não só o mundo ficou naturalmente cafona, mas também o cinema, misturado ao recém-criado videocassete, se popularizou como programa-pipoca de massa – foi uma enxurrada. Num misto de livre adaptação, licença poética e uma mania tupiniquim de explicar tudo, alguns se tornaram pérolas clássicas. Casos como Loucademia de Polícia (ou só Police Academy, 1984), Apertem os Cintos o Piloto Sumiu (ou Airplane, 1980) e o imbatível Meu Primeiro Amor (que, quando chegou no My Girl 2, 1994, virou Meu Primeiro Amor 2! Oi?).
Mesmo os pretensos a sérios padeceram do mal, como o mirabolante Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977), Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003) e o coitado do Amor sem Escalas (Up in ther Air, 2009), que fez um monte de rapazes perderem um ótimo filme porque acharam que fosse comédia romântica.
Bastante gente já escreveu sobre isso, como o CinePop, que arriscou um ranking dos melhores (ou piores, claro), e este quase-glossário com todas as livres adaptações e o que seriam suas traduções literais.
Mas, pinçando um período anterior a isso, e de traduções igualmente autônonomas e infelizes – algo entre os anos 40 e 60 -, uma coisa nos chamou enormemente a atenção: um rançoso e insistentemente recorrente toque de moralismo. São títulos que chegaram aqui, sem nenhum razão de ser em sua origem, com umas expressões um tanto canônicas como “pecado”, “rebeldia”, “deus”, “diabo” “vender a alma” e umas outras. Isso quando o sentido do novo nome não virou todo ele um julgamento e condenação completos aos coitados dos personagens.
Acompanhem:
A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965)
O exemplo mais pitoresco, também por ser um dos mais conhecidos (e, justamente por ser conhecido, acabar passando incólume). Ou não é a cara de um país recém-entrado numa ditadura, entre pânicos políticos e marchas da família com deus, trocar “música” por “rebeldia”?
A Malvada (All About Eve, 1950)
Além de sair de cara apontando o dedo pra Eve – a jovem atriz que consegue entrar e mudar a vida de uma grande diva do teatro de quem é fã -, o título brasileiro de quebra ainda estraga a história, já que a pobre da Eve, a princípio, é um doce.
O Pecado Mora ao Lado – The Seven Year Itch (1952)
O nome do filme que imortalizou a Marilyn com o vestido voando seria algo como “a coceira dos sete anos”. Na história, é também o título do livro que Richard, o protagonista, está lendo quando sua esposa viaja e, ao mesmo tempo, toda uma Marilyn Monroe muda pro prédio. O livro era sobre a incidência de traição no sétimo ano de casamento. Em inglês, chamaram de “coceira”. No Brasil, ficou “pecado” mesmo.
Marcado pela Sarjeta
(Somebody Up There Likes Me, 1956)
Ou de como despencar do céu ao chão mais rasteiro em apenas um título. O filme conta a história real de Rocky Graziano, um boxeador que nasceu pobre e errado, deu a volta por cima e virou vencedor. O nome original (dado pelo próprio Graziano à auto-biografia que inspirou a produção) escolheu o triunfo para destacar. Já a versão brasileiro não perdoou todo o resto da trejetória, que passa por gangues de rua, desentendimento com o Exército e anos de prisão.
Quando duas mulheres pecam (Persona, 1966)
Pois é, nem os cúmulos do cult se livraram. O filme de Bergman expõe uma complexa e lasciva relação entre uma atriz que se torna muda após um espetáculo e a enfermeira encarregada de tratá-la. Bergmen toma o “persona” da filosofia e da psicanálise para batizar o roteiro, que destrincha a fundo a relação das pessoas com a personalidade própria e a alheia. No Brasil, sai a psicanálise, entra ele de novo – o pecado.
Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945)
Sente a dramaticidade do título! FA-RA-PO-HU-MA-NO! O filme é um belo dramalhão de fato, mas suficientemente realista, sobre um escritor alcoolatra um tanto fracassado. O “fim de semana perdido” a que o nome se refere é aquele em que se passa a história, quando, entre flash backs e decepcções de toda sua vida, o escritor volta a beber após dez dias de sobriedade.
O Homem que Não Vendeu Sua Alma
(A Man for All Seasons, 1966)
O filme, na verdade, já era uma grande lição de moral e costumes: conta a vida de Thomas More, chanceler do Rei Henrique VIII, no século 16, que preferiu abdicar do cargo e ser perseguido a referendar o divórcio que o rei queria de sua esposa. O cara foi até canonizado quatro séculos depois. O nome original – uma expressão como “um homem que serve de exemplo em todas as situações” –, foi retirado de escritos da época sobre More. No Brasil já trocaram logo por “vender a alma” e chutaram o balde.
Os Brutos Também Amam (Shane, 1953)
Um título só com o nome do personagem e pronto: Shane é um pistoleiro misterioso que aparece do nada, resolve ajudar uma humilde família a enfrentar coronéis opressores e conquista o amor desde o filho pequeno até a esposa da casa. Mas não basta ser cowboy, tem que ser bruto! Coisa que se caísse no Twitter, hoje, podia até ser bullying e dar numa Parada do Orgulho Bruto. Ou os brutos não podem amar também, não?!
Vício Maldito (Days of Wine and Rose, 1962)
Tanto no quesito conseguir só termos moralistas em duas palavras, quanto em acabar com qualquer poesia, “Vício Maldito” (“vício”, e “maldito”, num título só?!) ganha, definitivamente. A sutileza do vinho e das rosas do inglês caía como uma luva de pelica para a história do despontar do amor seguido da decadência de um casal de alcoolatras. “Vício Maldito” cai como uma chibatada, no máximo.
A Caldeira do Diabo (Peyton Place, 1957)
O filme se passa nos tempos de Segunda Guerra nessa Peyton Place, uma cidadezinha pacata e bucólica de interior. Mas os casos pesados que vão se revelando de traição, estupro e suicídio desmoronam o way of life do lugarejo, e fizeram do filme um frisson de público e crítica na época. No Brasil, “caldeira do diabo”, é claro!
Uma Rua Chamada Pecado
(A Streetcar Named Desire, 1951)
Esse nem de longe é o nome mais esdrúxulo que já se deu a um filme no Brasil, mas sempre foi minha tradução bizarra preferida – justamente porque é total e assumidamente desnecessária. Me diz: pra que diabos botar “rua”, e “pecado”, se “bonde” e “desejo” já estavam ótimos?! Foi da discussão desta tradução, aliás, que nasceu este post. Afinal, vocês sabem: “pecado” é só um outro nome que inventaram para “desejo”.
Vinicius de Moraes e a corte do machista
Ele deixou o Rio mais bonito. Deixou o amor e a suas dores mais bonitos. Deixou o samba mais bonito e ajudou a inventar a bossa nova para deixar mais bonita também. Deixou Ipanema, Itapuã e a R. Nascimento Silva 107 mais bonitas. Até a Helô Pinheiro ele deixou mais bonita. Embelezou a boemia, o ‘cachorro engarrafado’ e uma simples banheira; a capoeira e uma casa de brinquedos, ou mesmo uma casa sem teto nem nada. Ele descobriu o Toquinho e nos apresentou o Tom Jobim. Enfim, Vinicius de Moraes deixou o país inteiro um pouquinho mais bonito.
Mas, sabendo do seu dom de deixar as coisas mais bonitas, foi especialmente espertinho com uma delas: o machismo.
É, porque ser machista é fácil, mas ser machista e, ainda assim, galante, não é para qualquer um.
Concordemos que não devem ser muitas as mulheres que negariam um versinho de Vinicius, que se incomodariam em ser musa inspiradora de um grande poeta ou de se sentir a coisa mais linda quando passa.
Mas se pegas por debaixo dos floreios de suas rimas, algumas das coisas ditas pelo escritor, compositor e diplomata perderiam muito do gracejo que o consagrou. A começar pelo clássico creditado a ele e que, verbalizado na boca de uma autoridade poética, pode ser um perigo para o bem-estar feminino: “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”.
Ok. Vamos entrar na brincadeira e ver até onde ele consegue chegar. Suponhamos que as feias de fato desculpem e não se importem de serem sumariamente excluídas das possibilidades de serem amadas. Já é meio caminho andado para as bonitas.
Mas, claro, um poeta não decepciona assim tão rápido, exigindo apenas beleza física como critério de seu amor. Não, que mesquinharia. “Senão é como amar uma mulher só linda“, diz o rapaz. “E daí?”. Isso aí, Vinicius! E daí?! Um consolo para as feias, já enxotadas da fila. “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa de triste… Um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e para ser só perdão”.
Tão machista que dá até para preferir estar entre as feias descartadas. Mas tá. Nessas palavras, declamadas carinhosamente, entre uma estrofe e outra de Samba da Benção, a intolerância já baixa um pouco a guarda.
De qualquer forma, não basta ser só bonita e triste. Para ser a namorada do poeta “tem que fazer um juramento de só ter um pensamento, ser só minha até morrer… e de repente fazer muito carinho e chorar bem de mansinho sem ninguém saber porquê”. E isso só para ser a namorada. Porque para ser a amada, mas amada mesmo, pra valer, pelo amor predestinada, a primeira-dama da poesia nacional, a história muda um pouco.
Além de bonita, triste, não pensar em nada que não seja ser dele até morrer, ficar fazendo carinho gratuito a toda hora e dar umas choradas de vez em quando, “você tem que vir comigo em meu caminho”. Ele se curvar ao caminho dela ou a um caminho feito pelos dois, nem pensar, né? Sem contar que “talvez o meu caminho seja triste pra você”, ele já alerta, de início.
E como o danado descreve a reação da cortejada a isso tudo? “Meu poeta, eu hoje estou contente, todo mundo de repente ficou lindo de morrer. Eu hoje estou me rindo, nem eu mesma sei de quê, porque eu recebi uma cartinhazinha de você”.
Pelo menos uma coisa unissexamente correta ele defende: “Quem é homem de bem não trai o amor que lhe quer seu bem”. Afinal, “para viver um grande amor há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade… Pois quem trai seu amor por vanidade é desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor”.
Sim, vai, pode suspirar. É bonito.
Então você não resiste, perdoa as caretices, compra uns discos do Vinicius e bota para ouvir. É quando ouve ele cantando, suplicando: “Ah, minha amada, me perdoa, pois embora ainda te doa a tristeza que causei, eu te suplico, não destruas tantas coisas que são suas…” Aí você começa a especular que talvez até o amor do que tinha a fórmula para viver um grande amor tem lá os seus deslizes.
Depois ele sofre, jura que “sem você eu não sou ninguém”, e que “sem ela não pode ser”, promete que se ela voltar dará “mais beijinhos que os peixinhos a nadar no mar”, diz que a luz dos olhos dele e a dos dela precisam se casar e mais um monte de lararará… Então a amada não resiste, volta para os seus braços e ganha um samba de presente: “Você voltou, meu amor, que alegria que me deu… É verdade, eu reconheço, eu tantas fiz, mas agora tanto faz”.
Claro que tanto faz, porque ele já tinha deixado claro antes que a função da mulher é “sofrer pelo seu amor e ser só perdão”. Podem checar alguns parágrafos acima se quiserem.
Mas também, como não se render? “Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”. Além do mais, ele vai pegar o violão e cantar baixinho ao pé do ouvido dela: “Eu sei que vou te amar por toda a minha vida”, “eu prometo ser somente teu e amar-te como nunca ninguém jamais amou”. Lerá uma crônica jurando que “minhas pernas andaram muitas léguas de mulher até te descobrir” e, num arremate final, sussurrará só mais um versinho: “eu sei e você sabe que todo grande amor só é bem grande se for triste. Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer, que todos os caminhos me encaminham pra você”.
Vai, pode suspirar de novo.
Daí o tempo vai passando e ele começa com uns papos de “por que será que o nosso assunto já se acabou, que o que era junto se separou, que o que era grande definhou? É muito triste quando se sente tudo morrer. E ainda existe o amor que mente pra esconder que o amor presente não tem mais nada pra dizer”.
E é assim que um poeta dá o fora. (Viu? Até os foras dele ficam mais bonitos.)
E depois sabe o que ele faz para explicar aquela coisa mal jurada de “por toda a minha vida” e evitar toda aquela histeria feminina de mulher abandonada? Entrega humildemente um bilhetinho derradeiro, em que se lê: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”
Então, a ex-amada – depois de ter sido triste, feito juramentos, não tendo pensado em nada que não fosse ele, ter feito muito carinho gratuito, chorado muito pranto mansinho, ter seguido o caminho dele e todas aquelas exigências empoladas para ser só dele até morrer –, fica toda feliz por estar levando um pé na bunda, porque acabou de inspirar um dos versos mais bonitos que a literatura brasileira já conheceu. E volta sozinha para seu caminho satisfeita, convencida de que “a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu”.
Talvez tenha sido assim com as nove esposas que ele teve.
O fato é que, concordando ou não com a sua linha de raciocínio, não há que se negar que ele soube como verbalizá-la – o que, todos sabemos, é uma habilidade tão ou mais importante que a ideia em si. E então os brios femininos descobrem, horrorizados, que machismo com poesia vira cavalheirismo.
E ainda está para nascer a feminista militante que, do fundo de sua condição injustiçada, abra realmente mão do ‘mulheres e crianças primeiro’ e de um bom e educado machista que lhe abra a porta do carro, puxe a cadeira, carregue as malas, mate as baratas, empreste o casaco em um dia de frio e pague a conta no final.
Mas, um alerta: elogiar Vinicius não é fazer uma apologia ao machismo. Não é só sair rimando amor com dor e pronto, achar que já pode casar nove vezes ou ficar conquistando e descartando mocinhas Ipanema afora. Não, rapazes, não pensem que é assim tão simples.
Ou então, sigam em frente alimentando sua prepotência desengonçada enquanto o Vinicius, do alto de seu trono de poeta, ri da sua cara: “Você que está aí com a boneca do lado, crente que é amo e senhor do material, pode estar redondamente enganado. No mais das vezes ela anda distante, num mundo lírico e confuso, cheio de aventura e magia, e você nem sequer toca a sua alma”.
Moral da história: a fórmula do poeta é muito mais refinada do que parece. E para poucos. Mas para muitas.
Julho/2004
Publicado originalmente em www.ilhabrasil.net
E essa; Veja explica?
De como a Veja copiou a Time, a Time copiou a Veja, ou ambas copiaram alguma outra coisa igual
A Veja é mesmo uma revista admirável, de conduta jamais condenável e princípios éticos bastante claros. Todos sabemos.
Dia destes, porém – pouco antes, no caso, do terremoto-tsunami que devastou o Japão na semana passada, explodiu o reator de uma das usinas do país e trouxe novamente à tona a discussão e o medo da energia nuclear -, estava eu pesquisando por razões outras os eventos do acidente na usina de Chernobyl, e me deparei com uma matéria um tanto intrigante da referida revista, publicada no mesmo 1986 do incidente na então ainda União Soviética.
Bem. Vamos por partes.
Esta era a capa da edição em questão. Mais precisamente, de 7 de maio de 1986 (o acidente havia acontecido no sábado da semana anterior, 26 de abril):
E este, o começo da matéria:
Na manhã de segunda-feira da semana passada, os engenheiros da usina nuclear de Forsmark, a mais moderna e segura da Suécia, não acreditavam no que viam. Uma inspeção de rotina nas roupas de seus 600 funcionários indicava a presença de níveis altos de radioatividade…
- Fosmark?! – pensei. – Não era Chernobyl?
Poucas linhas adiante, no entanto, ao melhor estilo detalhado e não-óbvio jornalístico, descobria-se que foi dali, dessa Fosmark, na Suécia, que saíram os primeiros alarmes de que havia uma nuvem de radiação vindo de algum lugar da Europa. Foi só horas depois do aviso sueco, e já dois dias passados da explosão, que o governo soviético admitiu e informou ao mundo que um incidente havia ocorrido na usina ucraniana de Chernobyl, na cidade de Kiev.
O texto completo – intitulado, ainda em tempos de Guerra Fria, “A explosão vermelha” – pode ser lido aqui. (Os mais preciosistas podem ainda folhear toda a referida edição no acervo digital da revista, um arquivo completo e totalmente aberto de seus 53 anos de vida e que, bem ou mal, merece a visita).
Para o azar da Veja, porém, a minha pesquisa naquele dia havia sido bastante completa. Logo depois de encontrar todo o tipo de informação de que precisava na matéria da publicação brasileira (muito boa, por sinal!), fui também checar o igualmente disponível acervo da revista norte-americana Time (outra, esta sim!, que vale sempre consultar para o caso de qualquer pesquisa histórica do século 20. As matérias sobre Beatles nos anos 60, por exemplo, sobre as quais já escrevi aqui em outro post, são imperdíveis).
Pois bem. A capa da Time daquele mesmo maio de 1986, datada do dia 12:
Pegou?
Agora as duas junto, para ficar mais fácil:
Bem. Primeira moral da nossa história: a capa da Veja foi só uma versão tupiniquim um pouco piorada da mais hermética, clean e direto-ao-ponto Time. (Além de ficarmos sabendo que, naquela semana, o segundo assunto mais importante nos Estados Unidos eram as viagens do presidente Reagan e no Brasil era um surto de dengue, claro.)
Até aí, tudo bem. Esta não foi a primeira, nem a segunda, nem a última vez em que uma revista brasileira – país de mercado editorial até hoje ainda incipiente em comparação aos grandes percursores norte-americanos e europeus – se inspirou livremente em uma similar gringa para fazer seu trabalho artístico.
Qual não foi minha surpresa, no entanto, quando, ao começar a leitura, uma mesma palavra me chamou a atenção: “Fosmark”, a intrometida usina sueca!
Daí para os próximos parágrafos, eu lia em choque, apenas em versão agora em inglês e um pouco mais estendida, a mesmíssima historinha, número a número e evento a evento, da usina nuclear da Suécia detectando que havia radiação vindo de algum lugar e logo mais o governo de Gorbachev admitindo que era de lá.
Segue o trecho (a matéria na íntegra está aqui):
The first warning came in Sweden. At 9 a.m. on Monday, April 28, technicians at the Forsmark Nuclear Power Plant (há!) noticed disturbing signals blipping across their computer screens (…) The engineers lined up some 600 workers at the plant and tested them with a Geiger counter: the workers’ clothing gave off radiation far above contamination levels. Clearly, something was wrong — terribly wrong.
Se relerem, lá em cima, o trecho que transcrevi da matéria da Veja, verão logo que se trata de um livre tradução não literal mas bastante safada. Se, ainda, clicarem no link que postei para a íntegra de cada um dos textos, e lerem toda a primeira parte de ambas, verão que estão contando absolutamente a mesma coisa, apenas com as devidas diferenças de ordem, detalhismo e linguagem (já que, embora extensa, a matéria da Veja é ainda bem menor que a da Time e está devidamente adaptada ao seu público brasileiro bem menos leitor que o americano).
Ambas, nesta introdução, falam da tal da Fosmark fazendo o teste de radiação nos 600 funcionários; em Finlândia, Dinamarca e Noruega também detectando radiação em suas áreas; em todo o mundo esperando satisfação do lado leste da Europa (de onde estava vinha o vento), e, finalmente, do governo soviético informando um vazamento em uma de suas usinas seis horas depois (sim, precisamente seis horas, segundo as duas revistas).
Bem, é uma forma bastante peculiar para se começar uma matéria e ser apenas coincidência que duas pessoas em todo o mundo a tenham pensado igual.
De qualquer forma, se duas pessoas de fato o pensaram, dificilmente saberemos quais foram – nenhuma das duas matérias é assinada. Nenhuma, se quer, faz menção a ter usado algum material oficial, de divulgação ou de publicação parceira, como é comum hoje.
A impressão primeira que se tem, ao começar a ler, é de que o resto todo de ambos os textos será apenas uma versão português-inglês da mesma coisa. Li-os cuidadosamente, no entanto, antes de fazer qualquer acusação, e não são.
Ambas tem a mesma ideia geral (lembremos, estamos em um mundo que ainda tem muro de Berlim!): puxar a matéria mais pela falta de responsabilidade dos malvados soviéticos ao sonegar informações durante uma crise de proporções internacionais do que pelas causas, consequências e gravidade do acidente em si. As duas, no entanto, correm por rumos próprios, encadeando uma ordem diferente de acontecimentos, citando exemplos particulares e destacando o que para cada um de seus países seria mais relevante.
A Time, por exemplo, passa um bom parágrafo explicando que as usinas norte-americanas usam tecnologias diferentes e portanto mais seguras. Já a Veja está mais preocupada em dimensionar coisas como dizer que a nuvem de radiação que saiu da Ucrânia e chegou até à Itália equivale a uma área “que vai de São Paulo ao Ceará”.
De qualquer forma, ora aqui ora ali, há trechos que, se não se repetem integralmente, parecem bastante similares nas informações que prestam. Alguns exemplos:
VEJA
…Os soviéticos diziam precisamente o contrário. Desde o momento em que admitiram o desastre, fixaram-se na versão de que o problema fora controlado, com a perda de duas vidas e a existência de 197 feridos.
TIME
The Soviets went further. In a three-minute news brief on TV, an announcer said: “Some news agencies in the West are spreading rumors that thousands of people allegedly perished during the accident. It has already been reported that in reality two people died and only 197 were hospitalized.”
Ou:
VEJA
“É inaceitável realizar um programa nuclear com padrões de segurança tão baixos”, protesta Birgitta Dahl, ministra da Energia da Suécia.
TIME
Said Swedish Energy Minister Birgitta Dahl: “We shall reiterate our demand that the whole Soviet civilian nuclear program be subject to international control.”
Ou:
VEJA:
Numa declaração surpreendente, o segundo-secretário da embaixada russa em Washington, Vitaly Churkin, reconheceu que “é evidente que o problema não foi resolvido e, teoricamente, representa uma ameaça para as pessoas na União Soviética, mas nós estamos tentando controlar a situação“.
TIME:
In a deft and tough- minded performance, Vitali Churkin, second secretary of the Washington embassy, offered little new information but acknowledged that the crisis was not yet over. “Definitely there has been an accident which has not been liquidated yet and theoretically poses a threat to people outside the Soviet Union,” Churkin said. “We are still trying to manage the situation.”
Ou:
VEJA:
Contrastando com a serenidade da burocracia russa, ouviam-se sinais de desespero vindos de Kiev. “Você não pode imaginar o que está acontecendo aqui, com todas essas mortes e o fogo“, disse um radioamador soviético a um colega japonês. “É um verdadeiro desastre. Milhares e milhares de pessoas estão fugindo. Eu estou a 30 quilômetros de distância da usina e não sei o que fazer”, dizia o russo, que foi ouvido na Holanda pelo monitor de rádio Annis Kofman.
TIME:
On Tuesday, Annis Kofman, a Dutch amateur radio enthusiast, reported picking up a broadcast in which a distraught ham operator near Chernobyl announced that two units were ablaze and spoke of “many hundreds dead and wounded.” The man cried, “We heard heavy explosions! You can’t imagine what’s happening here with all the deaths and fire. I’m here 20 miles from it, and in fact I don’t know what to do”.
Não são muitos os exemplos além destes em todo o resto das matérias, mas já há novas morais da história que podemos especular:
a) A Veja copiou partes do texto da Time.
b) E por que não? A Time copiou partes do texto da Veja.
c) As duas copiaram as mesmas coisas de alguma outra matéria de jornal, agência de notícia internacional (se é que este conceito já existia no mundo pré-internet de 25 anos atrás) ou de alguma espécie de comunicado oficial que algum governo envolvido possa ter emitido naquela semana.
d) Ambas pesquisaram as mesmas coisas, entrevistaram as mesmas pessoas e selecionaram as mesmas frases para destacar.
Bem. Enquanto nem Veja, nem Time, nos dão uma explicação, pode escolher a sua alternativa.
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Cidade vazia, ônibus cheio
CPTM, Marginal Pinheiros. Sexta, 31 de dezembro, 17h
A imagem acima, embora pudesse servir de registro a qualquer seis-da-tarde de qualquer dia util da cidade de São Paulo, mostra um dos vagões do trem da CPTM na última sexta-feira – no caso, 31 de dezembro; poucas horas antes do foguetório nacional da virada de ano e, tradicionalmente, a semana mais vazia e atípica da capital.
Segundo a CET, o trânsito no momento em que meu esforçado celular fotografou este vagão – por volta das 17h daquele dia 31 – era de ZERO quilômetros. Isso mesmo. Em caixa alta. Z-E-R-O.
A mesma CET calculou também que, naquela última semana de 2010, pelo menos 1 milhão de carros tinham saído correndo da entediante São Paulo de final de ano. Em outras medidas, é quase 15% de todos os 7 milhões de automóveis que entopem diariamente a cidade; ou uma Campinas inteira em carros deixando São Paulo.
A conclusão é: a megalópole fica vazia. Os bares sobram mesas na calçada, os cinemas somem com as filas, os bancos e as lotéricas agilizam o atendimento, até os shoppings e a 25 de Março esvaziam, e, claro!, vias como Rebouças, 23 de Maio ou Marginal ficam parecendo interditadas para a filmagem de algum Ensaio Sobre a Cegueira de tão irreconhecidamente livres que ficam.
Tudo, tudo em São Paulo é vazio. Menos o transporte público!
Bem. Imaginem vocês que o sujeito tem que se esforçar bastante para – com 15% a menos de carros, mais um bocado de milhões de pessoas pra fora com eles, e, arrendondemos, uma boa metade da população economicamente ativa não tendo que se deslocar para trabalhar – conseguir ainda lotar um ônibus, ou um vagão de trem. Um trem destes, vale lembrar, consegue carregar até 1.800 passageiros, segundo o orgulhoso discurso do estado quando da modernização das linhas. Onde é que foi que, num fim de tarde de 31 de dezembro, a CPTM achou 1.800 pessoas pra encher um trem?!

Av. Rebouças. Sexta, 31 de dezembro, 16h
Ônibus na Av. Rebouças. Sexta, 31 de dezembro, 16h.
A pergunta, naturalmente, é retórica, já que a resposta é fácil e a lógica comercial até que compreensível. Menos gente? Menos ônibus! Claro. É o que, por fim, fizeram os bares, os cinemas, os shoppings, as lojas da 25, os bancos e as lotéricas: fecharam.
Daí, na mesma semana em que o confortado indivíduo portador de seu veículo próprio, não-colaborador do trânsito e do meio ambiente, goza da rapidez de cruzar uma 23 de Maio em menos de 20 minutos; o pobre cidadão que, por opção, ou por falta dela, utiliza o transporte público, passa os mesmos 20 minutos simplesmente parado, de pé – com sorte em um ponto que tenha teto, com azar em um postezinho fincado em uma calçada erma qualquer; com sorte saudável, com azar, idoso, deficiente ou grávido -, só esperando seu ônibus passar para então sim dar início ao trajeto.

CPTM, Marg.Pinheiros.
Há que se ressalvar, a despeito da provável opinião das 28 empresas concessionárias que administram as linhas de ônibus da cidade, que o sistema de transporte público reserva algumas diferenças bastantes essenciais com relação a um bar, um cinema, um shopping ou um banco. Já pensou?! “Dia 1 tem pouquíssima gente na cidade, não abriremos as estações de metrô”; ou “hoje os ônibus ficam na garagem”.
O transporte é um direito e um dever públicos, tanto quanto uma delegacia ou um hospital: “- Alô 190?, estão fazendo um arrastão no prédio aqui da frente” – “Me desculpe, senhor, mas a próxima viatura só sai da base em 20 minutos”. Ou então, o senhor cidadão que se acometeu de uma sinusite, ou que despencou da escada, ou foi atropelado por um caminhão, chega ao pronto socorro, às 17h de um 31 de dezembro, e a atendente lhe fala: “O senhor terá de aguardar. Como 15% da população viajou, reduzimos a equipe à metade e os médicos só estão atendendo de 20 em 20 minutos.” Então, o médico, sentado na sala ao lado, como um ônibus parado no ponto final, conta até o vigésimo minuto da chegada do paciente, e só então levanta-se para atendê-lo.
R. Augusta. Quinta, 30 de dezembro, 15h.
A meu humilde e revoltado ver, é o equivalente a isso que se vem fazendo nas linhas de ônibus, ou de trem, na sexta maior cidade do mundo.
No famigerado 31 de dezembro, por exemplo, em que 15% da frota de carros, e portanto uma porcentagem ligeiramente semelhante da população, deixaram a cidade, a SPTrans informou protocolarmente em seu site que a frota de ônibus estaria reduzida – só que em 50%. Uma leve desproporção, não acha, SPTrans?
É um atendimento bastante preguiçoso para um serviço que estaria 11% mais caro em poucos dias. Segundo a prefeitura, e seu excelentíssimo commander-in-chief Gilberto Kassab, já no 5º dia de 2011 a tarifa do ônibus vai subir dos atuais R$ 2,70 para R$ 3,00 – exato um ano depois de já ter saltado dos R$ 2,30 para os referidos R$ 2,70 (ou 30% no ano completo).
Os reajustes, das mensalidades de escola ao minério de ferro, sempre têm lá suas justificativas. Prefiro preterir a discussão dos 30 centavos a mais em função da qualidade – se a preguiça flagrada na última semana do ano (em que não peguei um único ônibus pelo qual não tivesse esperado 20 minutos e no qual não tivesse que ir apertada) fosse tão atípica quanto a trégua no trânsito paulistano, desembolsava quantos R$ 3 fossem necessários.
O abuso da boa vontade do cidadão, no entanto, é uma regra. Quanto mais tranquila estiver a cidade para rodar com o seu carro, mais trabalhoso será o ofício do tomador de transporte público. Fica, será, a mensagem implícita da prefeitura, para quem o colapso das vias não deve ser um problema – “compre um carro”?
Parque do Ibirapuera. Março, domingo, 15h.
Após perder, estimemos, 1h40 da minha vida apenas nas esperas de ônibus naquela semana (média de 20 minutos por dia útil), tive a curiosidade de ligar nos órgãos devidos para exigir (ou ao menos sondar a funcionalidade) de meus direitos.
Fui ao Procon, que alguns dias antes me havia sido bastante solícito e eficiente quanto ao caso de um aparelho celular quebrado antes da hora.
- Alô, eu gostaria de fazer uma reclamação sobre o transporte público.
- Transporte público é com a SPTrans, senhora.
- Mas a reclamação é sobre a SPTrans.
- Também é com a SPTrans, senhora.
- Mais alguma coisa – não obrigada – o procon agradece.
E fica por isso mesmo.
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Paul McCartney, os Beatles, eu e a história
A primeira vez que eu ouvi Beatles eu tinha uns 8 anos.
Quer dizer. Não era bem Beatles. Era uma orquestra, uma sinfonia, sei lá, que gravou um CD só com versões da banda, instrumental, e que meu pai, como bom colecionador do grupo de sua juventude, veio a comprar anos depois e botar para ouvir nas tardes de veraneio em nosso ex-apartamento de Santos, quando eu tinha – por volta de – 8 anos.
Eram arranjos, na minha visão de hoje, terrivelmente cafonas – como vocês bem podem ver nesse único sampler que encontrei na internet, e no site dos caras, que mostra que não era orquestra coisa nenhuma, e sim algum quartetinho britânico de festa de casamento.
Mesmo assim, ali, aos 8 anos, eu ainda não achava cafona – tanto quanto nem sabia o que era Beatles -, e o CD das tardes de Santos marcou minha infância. Eram melodias lúdicas que, para mim, sempre haviam sido instrumentais. Assim como With a Little Help From My Friends sempre havia sido a abertura de Anos Incríveis.
Não lembro a primeira vez que eu soube o que era Beatles, porém. Nem quando vim a ouvir os originais. Lembro só de então, um dia, já ser crescida, e eles sempre terem existido. Como se fosse isso. O mundo sempre foi como é depois de ter existido Beatles – ou porque sempre existiram, ou porque não mudaram o mundo.
Visões confusas dessa juventude um pouco frustrada – eu! – nascida depois de o mundo já estar mudado.
Quando eu ouvi Beatles pela primeira vez, no baixo anos 90, a banda já existia há 30 anos, já tinha acabado há 20 e John já estava morto há 10. Isso, convenhamos, é uma visão egocêntrica, ou solitária, de “primeira vez”: quando eu ouvi Beatles pela primeira vez, Beatles já tinham sido ouvidos milhões, milhões de vezes.
A primeira vez legítima – quando os primeiros ouvintes ouviram a primeira exibição de Love me do numa rádio liverpooliano qualquer de 62 – é muito mais importante. Ela explica, em parte, todo o fascínio e a importância do quarteto, e o fenômeno de tanto o fascínio quanto a importância se estenderem ate hoje, plena década de 10 do século 21.
Não que Love me do, aquela baladinha chata de quatro acordes em Sol Maior, fosse grande coisa. Mas algo, dali, se tornaria grande – como nós hoje sabemos e, à época, se especulava por que. “Os adultos talvez não entendam, mas como 20 milhões de jovens podem estar errados?”, questionava, num embrionário 1964, um artigo da revista Time – ano em que os Estados Unidos, mesmo acostumados a frissons como Elvis e Sinatra, assistiam embasbacados a suas mocinhas histéricas por um grupo de quatro britânicos desengonçados e mal penteados na primeira turnê pelo país.
“No dia que os fãs nos deixarem, eu vou ter que ver como irei bancar meu uísque e minha Coca-Cola”, conjectura, em 1963, um John Lennon de 23 anos – o mais velho da banda recém-criada, ao lado do colega de mesma idade Ringo Starr. Paul tinha 21, e George míseros 20.
Os meninos, e o mundo, eram muito novos em 1963. Alguma coisa aconteceu nos fugazes cinco anos seguintes, entre a morte de um Kennedy e um bombardeio de Napalm no Vietnã, que todo o mundo – ele mesmo, o mundo – ficou diferente.
Sempre achei intrigantemente curioso como, numa sociedade pré-globalização, o ano de 1968 conseguiu ser igualmente arrasador de Paris a Washington, Brasil e Tchecoslováquia. E da mesma forma é intrigante e curioso o famigerado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (ou “Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta”, vale lembrar) ter sido lançado seis meses antes para entrar para a história como um divisor de águas comportamentais. Além de um bom disco, é claro.
Sgt Pepper’s foi lançado na primeira semana de junho de 67, e na segunda já estava esgotado. A ideia de uma banda fictícia num show forjado, a suposta apologia às drogas e a dissonância de Lucy in the Sky, a cítara nova do George e o convite à viagem-meditação de Within You Without You, e, por fim, a atordoante e inédita progressão de 5:32 minutos de A Day in the Life - uma mistura nunca dantes vista de crônica, sonho e complexos arranjos filarmônicos -, agrupou em um único e cuidadoso álbum os indícios que os quatro beatles já vinham dando de que tinham cansado de tocar música de bailinho para adolescente.
Isso tudo, é claro, é o discurso do meu conhecimento de almanaque, montado à base de muita coletânea posterior “best of” e “fulano sing the beatles”. Mas nunca, nunca, ninguém vai conseguir me explicar realmente o que tinha tanto naquele disco, que não teve no anterior Revolver (que pra mim já é muito do parecido), não teve no seguinte White Album (que pra mim é ainda melhor!), não teve nos contemporâneos Rolling Stones, The Doors ou Bob Dylan; e, ainda assim, quando cada um no seu canto ouviu pela primeira vez, fez mudar alguma coisa para si.
Stones, Doors e Dylan correram pra comprar. Jimi Hendrix, conta a lenda, ouviu e três dias depois já tinha incluído faixas no seu show. Caetano Veloso, conta ele mesmo, ficou extasiado quando escutou, e foi chamar o Gil pra criar a Tropicália (movimento do mesmo 67 de Sgt. Peppers).
O inexplicável fulgor de uma primeira vez em seu tempo certo.
“A música dos Beatles está ficando mais complexa e desafiadora”, escreveu a Time em uma matéria-análise de mais de dez páginas pouco depois do lançamento do álbum. “Os adolescentes ié-ié-ié estão desligando o som no meio de A Day in The Life, enquanto, por outro lado, os jovens originais da Beatlemania estão também mais velhos, e acompanham a banda em um nível menos histérico. Em troca do público adolescente, os Beatles ganharam uma audiência muito mais séria.”
Para um reverendo, entrevistado na época, “Sgt. Peppers sintetisa a solidão e o terror destes tempos solitários”. Para um psiquiatra, os Beatles estavam falando “de uma forma existencial sobre a falta de sentido”. Para um maestro, a recém-lançada She’s Leaving Home, 6ª faixa do Lado A, “é igual a qualquer música que Schubert tenha escrito” (o que, na verdade, é mérito do arranjador George Martin, mas fica para o todo). Para um Paul de então 25 anos – “nós achamos que as pessoas iam gostar mais, e nós íamos gostar mais, se as músicas tivessem mais… realidade.”
“Os Beatles estão liderando uma evolução em que o melhor do pós-rock está se transformando em algo que a música pop nunca tinha sido antes: uma forma de arte”, prescreve o artigo da revista. É o algo entre a malícia e a maturidade que o texto define como a “grande distância” que separa “I wanna hold your hand”, na musiqueta de 63, de “I love to turn you on”, verso-mote de A Day in the Life.
E isso é só o que se sabia ainda em 67. Hoje temos noções mais claras da proporção das coisas, e já sabemos como acaba a história. Como um bom filme do qual já se sabe o final, e sempre se reassiste.
Gosto dos Beatles, não é pela minha memória da infância, e do disco-cover que eu ouvia aos 8 anos nas férias de Santos. A memória pessoal, inclusive, é uma justificativa quase mesquinha para gostar dessas coisas que são maiores que o tempo.
Gosto dos Beatles pelo cheiro de história que eles têm. Gosto dos Beatles porque se você ouve os discos na ordem, eles te mostram uma lógica. Gosto de Beatles pela forma como a banda acaba exatamente com a década de 60. Gosto de Beatles porque eu gosto de Caetano, e Caetano gostava de Beatles. E o Gil gostava de Beatles. E os Mutantes gostavam de Beatles. Gosto de Beatles porque todos os meninos gostam de Beatles. Gosto de Beatles porque gosto de Blackbird. E gosto de Two of Us. E porque Blackbird e Two of Us me lembram pessoas de quem eu gosto. Gosto de Beatles porque a felicidade é uma arma quente, e porque há lugares que eu me lembro, alguns mortos alguns vivos, e porque o amor que você colhe é igual ao amor que você faz. Gosto de Beatles porque eles são uma forma de me aproximar do meu pai.
Acho que arte, se tem uma definição, deve ser isso. Despertar em seu público algo além do produto em si.
Meu pai foi no show da segunda-feira. Eu fui no do domingo. E mais 65 mil pessoas no da segunda e outras 65 mil no do domingo – no show do Paul, agora com 68 anos, e sozinho, em São Paulo.
Não. Não foi o melhor show do século – nem do 20, nem do 21. Outros artistas, mais jovens, mais versáteis, mais cheios de pirotecnia fazem espetáculos melhores. O próprio Paul, 17 anos antes, quando primeiro passou pelo Brasil, fez uma playlist casada com efeitos melhor do que a atual Up and Coming Tour. O próprio Paul, ainda, há que se lembrar, é apenas um quarto do que ele mesmo representa.
Mas há um ponto no tempo e no espaço que, quando o artista, ou sua arte, ultrapassa, o público deixa de procurar neles apenas uma exibição de repertório. O artista vira uma espécie de Meca para onde as pessoas em busca de uma catárse se dirigem. E só cada um sabe o que leva consigo.
E eles vão levando
Escrito em novembro/2006.
A notícia é velha, a história é pra sempre.
Estreou neste sábado, 19 de novembro, na Academia Music Hall de Brasília, a turnê do novo disco de Caetano Veloso, “Cê”. Lançado em setembro deste ano, o álbum tomou todas as páginas e publicações de crítica musical – não necessariamente como o grande lançamento do ano, mas suficientemente elogiado.
O cantor e compositor baiano está hoje com 64 anos, e “Cê” se torna seu primeiro disco de canções inéditas dos últimos seis anos, desde “Noites do Norte”, de 2000.
Neste período, Caetano investiu em regravações – como o controverso “A Foreign Sound” (2004), álbum em que deu sua versão a músicas inglesas e americanas – e em parcerias, como a dupla com Jorge Mautner (2002). Além disso, na última década, foi mesmo com as regravações que Caetano conseguiu se manter no circuito comercial, como as baladas românticas “Sozinho” (1999) e “Você Não me Ensinou a te Esquecer” (2003), que o dispararam nas paradas pops de sucesso e em nada lembravam o Caetano rebelde e experimentalista dos anos 60 e 70.
“Cê” não só é a sua primeira obra inédita no século 21, como também consegue resgatar um pouco de suas letras caleidoscópicas das primeiras décadas – claro que na medida do possível do que separa um jovem de vinte anos de um sexagenário.
Filosofias sobre o tempo, uma leve perversão e versos como “feliz e mau como um pau duro” ou “mucosa roxa, peito cor de rola” marcam tanto as faixas do álbum quanto o clima que se criou para o show.
“Cê” chegou às prateleiras (e aos sites de download) do Brasil no mesmo mês em que, no Tom Brasil Nações Unidas, em São Paulo, Chico Buarque fazia a bateria de cinco semanas de show – prolongadas para sete – do álbum que havia lançado em maio, “Carioca”.
Como Caetano, Chico estava devendo novidades aos fãs desde o século passado. Em seu caso, a reclusão foi ainda maior: o último álbum de inéditas havia sido “As Cidades”, de 1998, quando foi também a última vez que subiu ao palco. Depois disso, voltou esporadicamente à mídia com trabalhos alternativos à música, como a peça “Cambaio” (2001) ou o livro “Budapeste” (2004).
É curioso observar a volta quase simultânea de dois ícones da cultura brasileira que, digamos, mesmo que separados sempre andaram juntos.
Caetano foi a cabeça da leva baiana que invadiu o sudeste com a bagunça ideológica da Tropicália nos anos 60. Chico era o carioca de família intelectual que se lançou com a imagem do bom moço de “A Banda” para virar o alvo preferido dos censores nos anos 70.
Cada um veio e seguiu por um caminho próprio. Compuseram apenas uma canção em parceria – “Vai Levando” (1975) –, dividiram os bastidores dos festivais de música da década de 60, fizeram um show juntos em 1972 (ao fim dos respectivos exílios) e, em 86, apresentavam juntos um programa de música mensal na Rede Globo.
Chico é dois anos mais novo que o colega. Nasceu em 1944 e completou 62 em junho. Lançou seus dois primeiros álbuns em 1966 (inclusive a trilha sonora de “Morte e Vida Severina”, peça de João Cabral de Melo Neto) e, no mesmo ano, arrebatou o público e os jurados do II Festival da Música Popular Brasileira da TV Record com seu “… pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”, que levou o primeiro lugar.
Em 1967 foi a vez de Caetano, que lançou seu álbum de estréia, “Domingo” – uma parceria com a então também iniciante Gal Costa –, e no Festival da TV Record do mesmo ano caiu nas paixões do povo com “Alegria, Alegria”. Sua canção ficou em segundo lugar, atrás dos vencedores Edu Lobo e Capinam, por “Ponteio”, e à frente de – vejam só – “Roda Viva”, de Chico Buarque.
Em 1968, Caetano lançava seu primeiro disco solo, criava a Tropicália, inseria guitarras na MPB e colhia vaias e aplausos à sua atitude irreverente. Já Chico difundia a nova fama de rebelde com “Roda Viva”, peça e música, e pronto: estava feito um ídolo de talento ratificado ao gosto dos militantes da esquerda em busca de alternativas de reação à ditadura militar.
Após o decreto do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, os dois artistas – como aconteceu com muitos – acabaram exilados, voltando ao Brasil apenas no início da década seguinte. Chico então se consolidou com suas refinadas canções de protesto. Caetano trouxe consigo uma melancolia londrina em que diluiu – mas manteve – o (des)comportamento dos rápidos dois anos de Tropicália.
Os dois artistas apareceram e se tornaram referência juntos. “Cê” é o 40o disco dos 39 anos de carreira de Caetano. “Carioca” foi o 41o dos 40 da de Chico.
Com este lançamento, o baiano finalmente fez as pazes com a crítica e com os seus fãs mais tradicionais, que reprovaram sua fase comercial do fim dos anos 90 e começo dos 00. Chico e seu novo disco estão bem longe do cancioneiro de protesto dos anos 70 que alguns fãs ainda acham que ele é, mas isso não impediu que a sua turnê fosse um fenômeno. O primeiro dia de bilheteria – um mês e meio antes do primeiro show – rendeu uma fila de mais de duas horas com pessoas de todas as idades, desde contemporâneos do ídolo até meninas vinte anos mais novas do que as canções que admiram. Em quatro semanas, os 41 mil ingressos postos à venda já estavam esgotados.
A longevidade de duas carreiras concomitantes e a volta simultânea depois de uma pausa de período semelhante podem ser apenar coincidêncica. Mas a afinação é perfeita.
Carta a Washington Olivetto
Se você é o Washington Olivetto, é provável que tenha chegado a você nessa semana um pedido: usar uma unique type.
E se você tem coração, vai usar.
A unique type, Washington, é algo entre uma fonte pra computador e uma campanha que a AACD criou junto com uma agência de publicidade, a Agência Click, para fazer pensar sobre suas crianças.
A AACD, Associação de Assistência à Criança Deficiente, o senhor deve saber, é um daqueles centros de atendimento que o poder público não fez, mas a iniciativa privada fez, devidamente sem fins lucrativos, para receber, cuidar e ajudar a inserir na sociedade as crianças com alguma espécie de deficiência física.
Pois, no ano passado, a AACD sentou com a Agência Click pra tomar um café e a dupla teve a ideia de lançar uma campanha internacional (na verdade, cibernética, o que a faz naturalmente internacional ) convidando agências e designers mundo afora para criarem novos tipos de fontes bacanas e criativas a serem usadas em propagandas publicitárias, embalagens de produtos, vídeos, qualquer coisa, como qualquer outra fonte.
A diferença é que o desafio propunha basear a criação nas crianças da AACD, ou seja, nas aparentes dificuldades que elas têm e na forma como isso não as impede de levar uma vida normal.
Aí criaram esse vídeo abaixo, esse site, com esse link com fotos inspiradoras de otimismo, e esperaram pra ver no que dava.


Deu que um monte de gente participou e criou várias opções de fontes, que podem ser vistas nesse mesmo site aí de cima. São tipos de letras com um tracinho diferente, um pedacinho faltando, uma serifa um pouco mais alongada.. que no fim, pasme, você nem percebe.
Elas estão por aí. Já começaram a ser usadas, sem estardalhaço, em alguns anúncios espalhados, com os quais já devemos até ter trombada e nem sabemos. Apenas um selinho no canto da página, a lá “ministério da saúde adverte”, indica que a fonte usada naquela propaganda faz parte de um projeto maior.
Esse alfabeto, por exemplo, que também foi criado para o unique type e apaga partes das letras:
…está aqui nesse anúncio da Havaianas:
E a gente nem precisou pensar sobre isso.
O que esse pessoal te mandou, Olivetto – apenas o primeiro de uma lista de renomados publicitários que também devem ganhar videos próprios em breve, listados aqui -, foi uma vinhetinha feita com estas crianças, inteirinha só para você, pedindo para que você use uma, uminha só que seja, unique type n’algum do seus comerciais.
E se rolar ainda de comentar com uns colegas de trabalho por aí, melhor!
O bacana da ideia toda é que, diferente do que a pré-disposição à pena das pessoas normais tende a pensar, o que se pede não é ajuda, não é atenção, não é dinheiro, nem respeito não é. Os vídeos não são piegas, a musiquinha de fundo não é melancólica, as crianças não são irremediavelmente mais infelizes que as outras. O que se propõe é apenas um tratamento natural.
Do contrário da provável grande crise existencial do homem médio comum, o sonho dessas crianças, mais tarde adolescentes, mais tarde adultas, deve ser chegar o dia em que simplesmente não vão ser percebidas. Você não acha, Washington?
Ah. Você não é o Washington Olivetto né?
Então avisa pra ele! @w_olivetto.
Veja outras campanhas bacanudas no post abaixo
Únicos
A campanha da Unique Type da AACD não é a primeira a pedir atenção para as dificuldades das pessoas com algum tipo de deficiência. E também não é a primeira a alertar para o fato de que a verdadeira dificuldade não é a falta de um membro, nem o excesso de um cromossomo. É conseguir conviver na sociedade sem que isso faça diferença.
Em 1998, um comerical de mais dois minutos veiculado na TV, além de ajudar a popularizar Radiohead no Brasil, deu um tapa na cara dos raciocínios de conclusão pronta:
Seguem outros que valem alguns minutos de youtube
Sobre eleições e revistas
Espero que ao menos a uma parcela dos 500 mil leitores da Veja a capa desta semana tenha causado qualquer uma das espécies de estranheza existentes na fauna do senso crítico.
Para que meu comentário não fique tão tendencioso quanto as colunas do Diogo Mainardi (afinal não é esta uma discussão política, e sim editorial), segue apenas a comparação da capa do sorridente pré-candidato da edição atual (à direita) logo ao lado de sua mais sombria e menos colorida concorrente, em edição de dois meses atrás (24 de fevereiro).
Detalhe para as chamadas na capa da Dilma – “a candidata e os radicais do PT” – e as concisas de Serra – “Serra, o pós Lula e blablabla”.
(Clicando na imagem ela amplia)
Sem mais.











