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Infância, Walt Disney e velhice

22/09/2009

Nós, filhos dos anos 80 pra trás já velhos o suficiente para sermos conservadores, tendemos a dizer que a infância de hoje não é como a nossa, que tem mais vícios, que tem menos liberdades. Dessas coisas que se dizem a toda década desde que os românticos inventaram no século 18 a idealização ao passado.

o começo de tudoPodemos hoje, 2009, dizer o que for das juventudes duas décadas mais novas que as nossas. Mas os longas de animação – tradicionais acompanhantes das crianças desde a Branca de Neve (1937!) e, mais profundamente, potencial material de estudo sócio-cultural de seu tempo – têm me feito pensar sobre a evolução de seu público alvo. A infância.

Explica-se.

Pensem meus contemporâneos, criançada anos 80 que estimulou a imaginação com o Atari e não com o universo pronto do Wii, que aprendeu de sexo com o livro da Marta Suplicy e não com a libertinagem do Pornotube, que estimulou seu raciocínio no esforço de ir até a biblioteca ler a Barsa e não copiar do Google para fazer os trabalhos de escola.

Quando estávamos lá com nossos seis, sete, oito aninhos, a Disney lançava os clássicos A Pequena Sereia (1989), A Bela e a Fera (1991) e Aladdin (1992). Salvo as diferenças entre o fundo do mar, um castelo francês e as arábias, todos os três eram a história de uma bela princesa infeliz em busca de sua liberdade, que será, ao fim (ops, contei!), alcançada ao lado de um príncipe e seu verdadeiro amor.

Simba e MufasaDaí, 1994, veio o Rei Leão, matou o primeiro pai da nossa vida (depois da morte da mãe do Bambi e da mãe do Little Foot!), descobriu que os personagens amiguinhos-irritantes (Timão e Pumba!) podiam vender mais que os protagonistas, fez uma revolução tecnológica desapercebida às crianças com a digitalização de cenas como a do estouro da manada e entrou para o Top 10 das maiores bilheterias do século.

Só que aí a Disney – ou quem sabe, seu tema preferido de princesas em busca da felicidade/príncipe – parece que caducou, e o estúdio do falecido Walt nunca mais acertou a mão sozinho. Patinou com filmes como Pocahontas (1995), Corcunda de Notre Dame (1996), Hércules (1997), Mulan (1998), Tarzan (1999) e só foi ter um pico de sucesso quando descobriu a Pixar, que por sua vez descobria o mundo digital, e tacou no mundo Toy Story (1995).

Só que aí já começava a existir a Dreamworks, fundada em 1994 por geninhos como Spielberg e que, de pouco em pouco, foi achando o tom que a própria Disney tinha cantado com seus fracassos: em 1998 botou o Woody Allen para dublar uma simpática formiga em crise existencial em Formiguinhas; em 2000 tascou as galinhas em busca de fugir do galinheiro-campo-de-concentração de A Fuga das Galinhas e, já daí, começou a irritar Walter Elias Disney (sim, meu parente!) na paz de seu túmulo.

E, se restava até aí alguma dúvida de que aquele papo de princesa tava démodé, da-lhe Shrek neles, de 2001.

mundo pós-2001Do monstro verde pra frente, não só o mundo não teria mais as torres do World Trade Center, como o universo animado nunca mais levaria às telas uma única história de família real, herdeiros perdidos, sapatinhos de cristal, torres de castelo e, se quer, de casal. Tomaram o poder bichinhos quase anti-heróicos aprendendo a valorizar a vida com amizades estabanadas, de quaisquer que sejam os estúdios – vide Madagascar, A Era do Gelo, Monstros S.A., Carros e o imbatível Procurando Nemo (todos de 2001 a 2006).

Nos anos mais recentes, a Disney reapareceu com o quase cult Wall-E (2008), história praticamente sem diálogos de um robozinho solitário num mundo detonado pelo lixo, e, fresquinho nos cinemas, Up – não só o primeiro longa animado feito em 3D, como também o primeiro da espécie, em seus 70 anos de existência, a ser protagonizado por um idoso. Ranzinza. E por um japinha filho de pais separados que sabe onde é a América do Sul.

Note, leitor, que a verdadeira revolução, injustiçada por trás do grandiosismo digital, não foi a descoberta do computador, mas sim a sacada de roteiros inteligentes que finalmente superaram os irmãos Grimm para falar de temas de sua própria época.

fundo do mar dez anos depoisOu você, pensando distanciadamente, realmente acha que a infância ideal para seu filho seria crescer vendo desenhos sobre mocinhas almejando a liberdade no casamento, em vez de formigas metafóricas que refletem a falta de sentido das massas ou de peixes amnésicos que ensinam a ser feliz pelo simples fato de não se apegarem a lembranças (“continue a nadar, continue a nadar…”)?

Isso de chamar tudo que é diferente de nós de “geração perdida”, como se nós fossemos os titulares do correto pelo fato de termos vindo antes – coisa que nossos pais e os pais dos nossos pais já faziam – é uma mistura de receio do futuro com um conservadorismo inevitável (se é que ambos já não são a mesma coisa).

É que conservadorismo, vocês sabem, não é defender um conjunto de regras determinado (casar virgem, não usar drogas, votar na direita). É defender o conjunto de regras que pertenceu ao seu tempo (Atari, sexualidade em livros didáticos, enciclopédia e bibliotecas). Coisa inerente a qualquer um que já tenha passado.


Fontes: Filmografia da Disney/Pixar e da DreamWorks

7 Comentários leave one →
  1. 22/09/2009 15:41

    Quase um ensaio antropológico, filosófico e psicológico!
    Parabéns. Como representante da infância ANOS 80, concordo com o que você disse. A vida não imita a arte coisa nenhuma… A vida teima em copiar o que aprece na telinha, como o Brasil Urgente do Datena e outros lixos. Delicioso texto e boa análise.
    Voltarei outras vezes.
    É bom ler coisas que refletem o que sentimos.
    Sobre algo que vivemos para contar…

  2. 06/01/2010 11:03

    Matéria interessante!
    Eu sou dos anos 90 e também sou super coservadora.
    Fui (e ainda sou) muito fã dos antigos filmes da Disney tais como Alice (amoo)…
    Com certeza a infância de hoje em dia não é a mesma, eu ligo a TV de manhã e só dá desenhos de guerra, violência… uma barulheira, logo desligo!
    O que querem ensinar aos pequenos com todo esse mal exemplo ?

  3. 27/01/2010 22:55

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK EU AMEI ES TE SAITE

  4. 08/08/2010 23:39

    A faze da Disney De A pequena sereia até Mulan, é conciderada como a Era de ouro do estudio devido ao sucesso sucessivo de suas produções…nunca que Pocahontas, tarzan (que arrecadou mais de 600 milhões pelo mundo) e O corcunda de notre dame patinaram nas bilheterias, pelo contrario amigo.
    Olha a intensão até que é boa, mas generalizar todos os filmes desse jeito, se vc vesse as galerias de arte e o trabalho que é pra fazer um filme de “mocinhas que alcançam o principe no final” acho que mudaria esse seu pensamento, fora as trilhas sonoras e os musicais épicos que você nem deve prestar atenção, ja que a maioria dos filmes destaCADOS COMO EXELENTES POR VOCÊ tem como objetivo uma comédia pastelão, vide Sherek e madagascar… nada contra, mas animação vai muito mais além disso…e Disney comprou a pixar, mas isso não quer dizer que são a mesma coisa ok? Disney é diney e pixar é pixar… CONCERTEZA depois de Sherek as coisas mudaram, as pessoas acham que uma animação boa é sinonimo de piadas forçadas e exageradamente desnessessarias, e esquecem que uma boa ttrama também é exencial.

    • 06/10/2011 19:06

      é gabriel. alguns amigos meus fissurados em disney fizeram a mesma ressalva.. de que as mudanças passam por uma série de reconfigurações e crises internas e de mercado da própria disney. mas a ideia era refletir um pouco a temática mesmo.. e nao acho que alguns, como up, nemo ou wall-e, sejam pastelao, no caso..

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