Paul McCartney, os Beatles, eu e a história
A primeira vez que eu ouvi Beatles eu tinha uns 8 anos.
Quer dizer. Não era bem Beatles. Era uma orquestra, uma sinfonia, sei lá, que gravou um CD só com versões da banda, instrumental, e que meu pai, como bom colecionador do grupo de sua juventude, veio a comprar anos depois e botar para ouvir nas tardes de veraneio em nosso ex-apartamento de Santos, quando eu tinha – por volta de – 8 anos.
Eram arranjos, na minha visão de hoje, terrivelmente cafonas – como vocês bem podem ver nesse único sampler que encontrei na internet, e no site dos caras, que mostra que não era orquestra coisa nenhuma, e sim algum quartetinho britânico de festa de casamento.
Mesmo assim, ali, aos 8 anos, eu ainda não achava cafona – tanto quanto nem sabia o que era Beatles -, e o CD das tardes de Santos marcou minha infância. Eram melodias lúdicas que, para mim, sempre haviam sido instrumentais. Assim como With a Little Help From My Friends sempre havia sido a abertura de Anos Incríveis.
Não lembro a primeira vez que eu soube o que era Beatles, porém. Nem quando vim a ouvir os originais. Lembro só de então, um dia, já ser crescida, e eles sempre terem existido. Como se fosse isso. O mundo sempre foi como é depois de ter existido Beatles – ou porque sempre existiram, ou porque não mudaram o mundo.
Visões confusas dessa juventude um pouco frustrada – eu! – nascida depois de o mundo já estar mudado.
Quando eu ouvi Beatles pela primeira vez, no baixo anos 90, a banda já existia há 30 anos, já tinha acabado há 20 e John já estava morto há 10. Isso, convenhamos, é uma visão egocêntrica, ou solitária, de “primeira vez”: quando eu ouvi Beatles pela primeira vez, Beatles já tinham sido ouvidos milhões, milhões de vezes.
A primeira vez legítima – quando os primeiros ouvintes ouviram a primeira exibição de Love me do numa rádio liverpooliano qualquer de 62 – é muito mais importante. Ela explica, em parte, todo o fascínio e a importância do quarteto, e o fenômeno de tanto o fascínio quanto a importância se estenderem ate hoje, plena década de 10 do século 21.
Não que Love me do, aquela baladinha chata de quatro acordes em Sol Maior, fosse grande coisa. Mas algo, dali, se tornaria grande – como nós hoje sabemos e, à época, se especulava por que. “Os adultos talvez não entendam, mas como 20 milhões de jovens podem estar errados?”, questionava, num embrionário 1964, um artigo da revista Time – ano em que os Estados Unidos, mesmo acostumados a frissons como Elvis e Sinatra, assistiam embasbacados a suas mocinhas histéricas por um grupo de quatro britânicos desengonçados e mal penteados na primeira turnê pelo país.
“No dia que os fãs nos deixarem, eu vou ter que ver como irei bancar meu uísque e minha Coca-Cola”, conjectura, em 1963, um John Lennon de 23 anos – o mais velho da banda recém-criada, ao lado do colega de mesma idade Ringo Starr. Paul tinha 21, e George míseros 20.
Os meninos, e o mundo, eram muito novos em 1963. Alguma coisa aconteceu nos fugazes cinco anos seguintes, entre a morte de um Kennedy e um bombardeio de Napalm no Vietnã, que todo o mundo – ele mesmo, o mundo – ficou diferente.
Sempre achei intrigantemente curioso como, numa sociedade pré-globalização, o ano de 1968 conseguiu ser igualmente arrasador de Paris a Washington, Brasil e Tchecoslováquia. E da mesma forma é intrigante e curioso o famigerado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (ou “Banda do Clube de Corações Solitários do Sargento Pimenta”, vale lembrar) ter sido lançado seis meses antes para entrar para a história como um divisor de águas comportamentais. Além de um bom disco, é claro.
Sgt Pepper’s foi lançado na primeira semana de junho de 67, e na segunda já estava esgotado. A ideia de uma banda fictícia num show forjado, a suposta apologia às drogas e a dissonância de Lucy in the Sky, a cítara nova do George e o convite à viagem-meditação de Within You Without You, e, por fim, a atordoante e inédita progressão de 5:32 minutos de A Day in the Life - uma mistura nunca dantes vista de crônica, sonho e complexos arranjos filarmônicos -, agrupou em um único e cuidadoso álbum os indícios que os quatro beatles já vinham dando de que tinham cansado de tocar música de bailinho para adolescente.
Isso tudo, é claro, é o discurso do meu conhecimento de almanaque, montado à base de muita coletânea posterior “best of” e “fulano sing the beatles”. Mas nunca, nunca, ninguém vai conseguir me explicar realmente o que tinha tanto naquele disco, que não teve no anterior Revolver (que pra mim já é muito do parecido), não teve no seguinte White Album (que pra mim é ainda melhor!), não teve nos contemporâneos Rolling Stones, The Doors ou Bob Dylan; e, ainda assim, quando cada um no seu canto ouviu pela primeira vez, fez mudar alguma coisa para si.
Stones, Doors e Dylan correram pra comprar. Jimi Hendrix, conta a lenda, ouviu e três dias depois já tinha incluído faixas no seu show. Caetano Veloso, conta ele mesmo, ficou extasiado quando escutou, e foi chamar o Gil pra criar a Tropicália (movimento do mesmo 67 de Sgt. Peppers).
O inexplicável fulgor de uma primeira vez em seu tempo certo.
“A música dos Beatles está ficando mais complexa e desafiadora”, escreveu a Time em uma matéria-análise de mais de dez páginas pouco depois do lançamento do álbum. “Os adolescentes ié-ié-ié estão desligando o som no meio de A Day in The Life, enquanto, por outro lado, os jovens originais da Beatlemania estão também mais velhos, e acompanham a banda em um nível menos histérico. Em troca do público adolescente, os Beatles ganharam uma audiência muito mais séria.”
Para um reverendo, entrevistado na época, “Sgt. Peppers sintetisa a solidão e o terror destes tempos solitários”. Para um psiquiatra, os Beatles estavam falando “de uma forma existencial sobre a falta de sentido”. Para um maestro, a recém-lançada She’s Leaving Home, 6ª faixa do Lado A, “é igual a qualquer música que Schubert tenha escrito” (o que, na verdade, é mérito do arranjador George Martin, mas fica para o todo). Para um Paul de então 25 anos – “nós achamos que as pessoas iam gostar mais, e nós íamos gostar mais, se as músicas tivessem mais… realidade.”
“Os Beatles estão liderando uma evolução em que o melhor do pós-rock está se transformando em algo que a música pop nunca tinha sido antes: uma forma de arte”, prescreve o artigo da revista. É o algo entre a malícia e a maturidade que o texto define como a “grande distância” que separa “I wanna hold your hand”, na musiqueta de 63, de “I love to turn you on”, verso-mote de A Day in the Life.
E isso é só o que se sabia ainda em 67. Hoje temos noções mais claras da proporção das coisas, e já sabemos como acaba a história. Como um bom filme do qual já se sabe o final, e sempre se reassiste.
Gosto dos Beatles, não é pela minha memória da infância, e do disco-cover que eu ouvia aos 8 anos nas férias de Santos. A memória pessoal, inclusive, é uma justificativa quase mesquinha para gostar dessas coisas que são maiores que o tempo.
Gosto dos Beatles pelo cheiro de história que eles têm. Gosto dos Beatles porque se você ouve os discos na ordem, eles te mostram uma lógica. Gosto de Beatles pela forma como a banda acaba exatamente com a década de 60. Gosto de Beatles porque eu gosto de Caetano, e Caetano gostava de Beatles. E o Gil gostava de Beatles. E os Mutantes gostavam de Beatles. Gosto de Beatles porque todos os meninos gostam de Beatles. Gosto de Beatles porque gosto de Blackbird. E gosto de Two of Us. E porque Blackbird e Two of Us me lembram pessoas de quem eu gosto. Gosto de Beatles porque a felicidade é uma arma quente, e porque há lugares que eu me lembro, alguns mortos alguns vivos, e porque o amor que você colhe é igual ao amor que você faz. Gosto de Beatles porque eles são uma forma de me aproximar do meu pai.
Acho que arte, se tem uma definição, deve ser isso. Despertar em seu público algo além do produto em si.
Meu pai foi no show da segunda-feira. Eu fui no do domingo. E mais 65 mil pessoas no da segunda e outras 65 mil no do domingo – no show do Paul, agora com 68 anos, e sozinho, em São Paulo.
Não. Não foi o melhor show do século – nem do 20, nem do 21. Outros artistas, mais jovens, mais versáteis, mais cheios de pirotecnia fazem espetáculos melhores. O próprio Paul, 17 anos antes, quando primeiro passou pelo Brasil, fez uma playlist casada com efeitos melhor do que a atual Up and Coming Tour. O próprio Paul, ainda, há que se lembrar, é apenas um quarto do que ele mesmo representa.
Mas há um ponto no tempo e no espaço que, quando o artista, ou sua arte, ultrapassa, o público deixa de procurar neles apenas uma exibição de repertório. O artista vira uma espécie de Meca para onde as pessoas em busca de uma catárse se dirigem. E só cada um sabe o que leva consigo.
Arrepiei com esse post.
Dá até vontade de chorar!
Parabéns!