Carta a Washington Olivetto
Se você é o Washington Olivetto, é provável que tenha chegado a você nessa semana um pedido: usar uma unique type.
E se você tem coração, vai usar.
A unique type, Washington, é algo entre uma fonte pra computador e uma campanha que a AACD criou junto com uma agência de publicidade, a Agência Click, para fazer pensar sobre suas crianças.
A AACD, Associação de Assistência à Criança Deficiente, o senhor deve saber, é um daqueles centros de atendimento que o poder público não fez, mas a iniciativa privada fez, devidamente sem fins lucrativos, para receber, cuidar e ajudar a inserir na sociedade as crianças com alguma espécie de deficiência física.
Pois, no ano passado, a AACD sentou com a Agência Click pra tomar um café e a dupla teve a ideia de lançar uma campanha internacional (na verdade, cibernética, o que a faz naturalmente internacional ) convidando agências e designers mundo afora para criarem novos tipos de fontes bacanas e criativas a serem usadas em propagandas publicitárias, embalagens de produtos, vídeos, qualquer coisa, como qualquer outra fonte.
A diferença é que o desafio propunha basear a criação nas crianças da AACD, ou seja, nas aparentes dificuldades que elas têm e na forma como isso não as impede de levar uma vida normal.
Aí criaram esse vídeo abaixo, esse site, com esse link com fotos inspiradoras de otimismo, e esperaram pra ver no que dava.


Deu que um monte de gente participou e criou várias opções de fontes, que podem ser vistas nesse mesmo site aí de cima. São tipos de letras com um tracinho diferente, um pedacinho faltando, uma serifa um pouco mais alongada.. que no fim, pasme, você nem percebe.
Elas estão por aí. Já começaram a ser usadas, sem estardalhaço, em alguns anúncios espalhados, com os quais já devemos até ter trombada e nem sabemos. Apenas um selinho no canto da página, a lá “ministério da saúde adverte”, indica que a fonte usada naquela propaganda faz parte de um projeto maior.
Esse alfabeto, por exemplo, que também foi criado para o unique type e apaga partes das letras:
…está aqui nesse anúncio da Havaianas:
E a gente nem precisou pensar sobre isso.
O que esse pessoal te mandou, Olivetto – apenas o primeiro de uma lista de renomados publicitários que também devem ganhar videos próprios em breve, listados aqui -, foi uma vinhetinha feita com estas crianças, inteirinha só para você, pedindo para que você use uma, uminha só que seja, unique type n’algum do seus comerciais.
E se rolar ainda de comentar com uns colegas de trabalho por aí, melhor!
O bacana da ideia toda é que, diferente do que a pré-disposição à pena das pessoas normais tende a pensar, o que se pede não é ajuda, não é atenção, não é dinheiro, nem respeito não é. Os vídeos não são piegas, a musiquinha de fundo não é melancólica, as crianças não são irremediavelmente mais infelizes que as outras. O que se propõe é apenas um tratamento natural.
Do contrário da provável grande crise existencial do homem médio comum, o sonho dessas crianças, mais tarde adolescentes, mais tarde adultas, deve ser chegar o dia em que simplesmente não vão ser percebidas. Você não acha, Washington?
Ah. Você não é o Washington Olivetto né?
Então avisa pra ele! @w_olivetto.
Veja outras campanhas bacanudas no post abaixo
Únicos
A campanha da Unique Type da AACD não é a primeira a pedir atenção para as dificuldades das pessoas com algum tipo de deficiência. E também não é a primeira a alertar para o fato de que a verdadeira dificuldade não é a falta de um membro, nem o excesso de um cromossomo. É conseguir conviver na sociedade sem que isso faça diferença.
Em 1998, um comerical de mais dois minutos veiculado na TV, além de ajudar a popularizar Radiohead no Brasil, deu um tapa na cara dos raciocínios de conclusão pronta:
Seguem outros que valem alguns minutos de youtube
Sobre eleições e revistas
Espero que ao menos a uma parcela dos 500 mil leitores da Veja a capa desta semana tenha causado qualquer uma das espécies de estranheza existentes na fauna do senso crítico.
Para que meu comentário não fique tão tendencioso quanto as colunas do Diogo Mainardi (afinal não é esta uma discussão política, e sim editorial), segue apenas a comparação da capa do sorridente pré-candidato da edição atual (à direita) logo ao lado de sua mais sombria e menos colorida concorrente, em edição de dois meses atrás (24 de fevereiro).
Detalhe para as chamadas na capa da Dilma – “a candidata e os radicais do PT” – e as concisas de Serra – “Serra, o pós Lula e blablabla”.
(Clicando na imagem ela amplia)
Sem mais.
Houve um tempo em que a moda era roubar tênis. Mas aí abriram o mercado brasileiro às importações, a criação do real aumentou o poder de compra, tênis deixou de ser artigo de luxo e a modalidade perdeu a graça.
A moda era também roubar carteira. Mas depois que os cartões se difundiram e as pessoas passaram a não andar mais com dinheir0 nem para a esmola, roubar carteira virou treinamento pra moleque.
A moda depois então virou fazer sequestro relâmpago. Ou seja, botar uma arma na cabeça daqueles que têm cara de quem anda com cartão e não com dinheiro, levar pro caixa eletrônico e mandar sacar tudo o que tiver e não tiver. Mas aí limitaram o funcionamento dos caixas eletrônicos até às 22h, e o sequestro relâmpago miou.
Teve também a moda de clonar celular. Mas aí a Vivo, que foi a última, finalmente se ligou, aderiu à tecnologia de chip e a clonagem de linhas móveis ficou sem rede para atuar.
A moda agora é roubar o aparelho. Quer dizer, a moda já é velha, mas continua um negócio extremamente lucrativo. E o melhor – lucrativo para todo mundo: o ladrão, o futuro comprador, as operadoras e as fabricantes.
O único prejudicado é o cliente original, claro, aquele que teve o aparelho furtado e que, como não quer nem perder a linha, nem deixar de ter celular em pleno mundo moderno, se manda a comprar um novo chip e um novo aparelho.
Já o ladrão ganha podendo revender um dos bens mais desejados da atualidade (o celular já é o produto mais vendido no Brasil até em dia das crianças) e o seu comprador – provável espécime do recém-chegado à classe média com um pouquinho de dinheiro e muitos planos de consumo – vai finalmente poder adquirir aquele celular mp3, 4 e 5 com rádio-tv-foto para colocar os dois chips pré-pagos que comprou por 15 reais na barraquinha do shopping. A operadora, por fim, não perde o cliente velho e ganha um cliente novo, e a fabricante, de quebra, vende mais um aparelho.
Sobre isto, você sabia que:
1. existe uma tentativa de seguro para celulares? Mas ela é mais roubada do que o roubo em si, e operadoras como TIM e Claro já até desistiram de oferecer o serviço. A Vivo segue com um parceria com a Mapfre. Custa a partir de R$3 por mês, mas só rende um aparelho novo quando houver provas de que você ou o local onde estava seu celular foram agredidos.
2. quando seu celular é roubado ou perdido, você tem a opção de bloquear não só a linha, mas também o aparelho? Sua operadora já te disse isso? Ao bloquear o aparelho, todas as funções dele ficam inutilizadas, independente de virem a colocar um novo chip ou não, e perde o uso pra qualquer idiota que acabar com ele na mão depois. Para fazer isso, é necessário ter o código do aparelho, um número pouco divulgado que é encontrado apenas na caixa de origem ou no próprio celular – basta digitar *#06# e aparece do nada um numerão de 15 dígitos na tela. É ele! Tatue-o no corpo e não o perca mais.
3. no Rio de Janeiro, em setembro, foi promulgada uma lei que obriga a operadora a dar um novo celular ao cliente em caso de perda, roubo ou furto? Caso contrário, a companhia não pode obrigá-lo a continuar como cliente e nem cobrá-lo multa em caso de rescisão. O Ministério Público fluminense entendeu que “é inegável que a situação ocasiona onerosidade excessiva para o consumidor“.
Ou seja. Solução há. Como os bancos fizeram com sequestros, e as próprias operadoras com clonagem, se o bloqueio de aparelho fosse difundido, os celulares de camelô comprados pelos espécimes da classe média não iam funcionar, os espécimes da classe média iam deixar de comprá-los, os camelôs iam deixar de revendê-los, os ladrões iam deixar de fornecê-los e, portanto, iam deixar de roubá-los. E assim, o furto de celular entraria para a mesma categoria das carteiras: furo n’água.
E se decisões como a do Ministério Público do Rio de Janeiro fossem para o resto do país, e as operadoras começassem a ter que dar um aparelho novo ou perder um cliente a cada celular roubado, e isso, portanto, começasse a lhes dar prejuízo, elas provavelmente divulgariam com mais afinco os mecanismo de bloqueio de celular. E, se os celulares roubados fossem bloqueados, os espécimes da classe média deixariam de comprá-los, os camelôs deixariam de revendê-los… e por aí vai a cadeia.
Mas cadeia nunca foi mesmo o nosso forte.
E a década vai para…
Capitão Nascimento, Johnny e Dadinho-é-o-caralho podem achar que roubaram a cena,
mas o destaque do cinema nacional foi mesmo para os documentários
A certa altura dos anos estava convencionado chamar o cinema brasileiro pós-Central do Brasil (1998) de “fase da retomada”.
Dando uma forçada de barra para dizer que a tal fase se consolidou a partir dos anos 2000 (mesmo já vindo desde os Carlotas Joaquinas e seus anos 90), e tomando a atual virada de década como fato que realmente muda alguma coisa, podemos fazer um balanço do legado deixado pela sétima arte nacional em seus primeiros dez anos de vida no século 21.
As produções, em volume e qualidade, de fato extrapolam de longe o que foi feito na década de 90 – algumas foram sucesso de público outrora impensáveis para um filme brasileiro: Carandiru (2002), Cidade de Deus (2003), Tropa de Elite (2007) e Meu Nome Não é Johnny (2008) são apenas alguns exemplos; já excluídas extensões de novela das sete como Sexo, Amor e Traição (2004) e Se Eu Fosse Você (2006-2008).
Ainda assim parece que se produziu, produziu, produziu, e ainda falta alguma coisa. Seja transcender a temática-síndrome-da-miséria, que só transita o cenário entre nordeste, favela e presídio; seja a qualidade técnica ainda pobrinha (Troféu Década para Cidade de Deus, que foi o único filme com cara de filme de verdade, e não de filmagem na garagem de casa); seja na sensibilidade do roteiro – a velha e boa comoção que, no fim, é a expurgação a que todos procuramos no cinema ou em qualquer arte e que, parece, depois das lágrimas de Fernanda Montenegro ao som dos violinos de Central do Brasil, nunca mais foi reproduzida com tanto talento.
Mas, enquanto isso, no lado B dos filmes que já são feitos sabendo que não terão grande público, um gênero se destacou tirando 10 em praticamente todos os trabalhos que entregou: os documentários.
Desde o comecinho, com Janela da Alma e Edifício Master (2002), até o último deles, Entre a Luz e Sombra (trajetória de dois presidiários do Carandiru lançada na última semana de novembro, 2009), uma sucessão de filmes extraordinários foi colocada à disposição do público ao longo dos anos 00.
O tudo, o nada e Coutinho
Edifício Master, de Eduardo Coutinho, não só foi um dos primeiros, como provavelmente deve permanecer até hoje, em seu oitavo aniversário, o top-of-mind em documentários brasileiros. Com a proposta de adentrar o prédio situado em Copacabana e bater aleatoriamente n’algumas das 276 portas, Coutinho e sua ótima lábia para discorrer sobre o nada conseguem histórias que vão do incrível ao emocionante, e chegam talvez ao que mais se aproxime do documentário em sua essência: a realidade por ela mesma.
E este foi apenas o começo do milênio para o cineasta. Em 2004 volta com Peões, uma bela busca, mesmo que quase partidária, por operários anônimos que lutaram ao lado de Lula nas greves de 80; em 2007 lança O Fim e o Princípio, em que se propõe a entrevistar sem tema nem porque moradores de um vilarejo da Paraíba e termina por revelar um universal medo da vida e da morte; até culminar em 2007 – Troféu Década para ele – com Jogo de Cena, um dos melhores nacionais dos anos 00.
Com um proposta no mínimo inusitada e com certeza inovadora, Jogo de Cena mescla depoimentos de mulheres comuns ao de atrizes consagradas – Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra, só para esnobar. Os depoimentos, no entanto, começam a ser repetidos pelas diferentes mulheres, famosas ou não, no pormenor do detalhe de cada vírgula, e leva até o fim a confusão de não saber mais quem está interpretando, quem está falando a verdade e que tanta diferença faz uma história universal ser verdadeira ou não. (ou isso).
Da música ao didatismo
Sabe-se lá por que cargas d’água o Brasil resolveu bater na tecla de seus músicos nessa década, mas o tema foi recorrente. Começou com a profundidade do silêncio de Nelson Freire (2003), rendeu dois filmes sobre Bossa Nova no mesmo ano – Coisa Mais Linda e Vinicius (2005) -, homenageou Bethânia em Música é Perfume (2005), e foi desbundar descaradamente em 2009.
Troféu Década para dois deles: Simonal, que, sem santificar, redime, humaniza e reergue o famoso cantor da década de 60 jogado ao ostracismo perpétuo depois de não saber brincar na ditadura; e Lóki, a triste-bonita história do também esquecido Arnaldo Baptista, mentor dos Mutantes relegado a um aparente desequilíbrio mental e à sombra de sua primeira-eterna namorada, Rita Lee.
Caetano Veloso, Titãs, Paralamas do Sucesso e até Waldick Soriano foram os outros que receberam filme próprio em 2009.
Para além da música, houve ainda a série de documentários quase didáticos, mas surpreendentemente emocionantes e atemporais em seu microuniverso retratado: caso de Raízes do Brasil (sobre Sérgio Buarque de Hollanda, 2004), Vlado – 30 Anos Depois (Vladmir Herzog, 2005), Três irmãos de Sangue (Betinho, Henfil e Chico Mário, 2007), e A Vida é Um Sopro (2007), sobre Niemeyer falando da brevidade da vida em plenos 100 anos recém-completos.
And the winner is…
Em segundo, a catadora de lixo meio louca, meio filósofa, meio cheia, meio vazia, Estamira (2005).
Meio louca de verdade, Estamira mora num lixão do Rio de Janeiro de onde brada, brava com a humanidade, profecias malucas e, aos déficits de atenção do telespectador, incompreensíveis. “Isso aqui é um depósito de restos. Às vezes é só resto. Às vezes é também descuido”, diz. “Não existem mais inocentes, mas espertos ao contrário”, diz também.
A imagem de uma louca, num lixão, é o cúmulo da metáfora da exclusão. Mas mais do que a exclusão em si e o pedantismo social de querer corrigi-la, ou dos impropérios assutadoramente lúcidos de Estamira, o documentário de Marcos Prado é sobre as razões que, afinal, terminam por levar as pessoas aos lixos e às loucuras.
Por fim, Troféu Década de Ouro para o documentário que era para ser sobre um mordomo, não deu certo, e acabou por ser um documentário sobre um documentário que não deu certo e a arrogância-inexperiência-inocência do cineasta-jovem-patrão que acabou por deixá-lo de lado: Santiago (2007).
João Moreira Salles, quando era 1992 e tinha 29 anos, resolveu filmar uma serie de depoimentos de Santiago, um senhor argentino que havia sido o mordomo da mansão dos Salles nos anos idos. As imagens ficaram intocadas até 2007, quando João as reassistiu, se achou ridículo, e resolveu retomá-las pelo novo viés.
Santiago leva o Troféu Década não porque a crítica o vangloriou como uma das melhores e mais honestas produções nacionais dos últimos tempos; nem pela sensibilidade incompreendida de Santiago, Estamira ou a poesia de qualquer um de seus pares anônimos; nem pelo potencial de sucesso de público que poderia ser. Santiago, como é da natureza de documentários e filmes brasileiros, não é um sucesso de público.
Santiago alcança e comove apenas um parcela pequeninha da sociedade, que frequenta três ou quatro ruas definidas do centro expandido das grandíssimas cidades e acha que nestes espaços está consumindo cultura, produzindo opinião e, com isso, sintetizando a humanidade.
Santiago não é um filme sobre um mordomo, nem mesmo sobre um documentário, tão pouco um documentarista. Santiago é sobre a pretensa e ridícula superioridade do público que o aplaude.
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Hollywood e o fim dos anos 1000
Com Carlos Valim
Os anos 2000 mal completaram sua primeira década e já esboçam as primeiras rupturas sócio-políticas e culturais que deverão ser estudadas mais tarde, como hoje o são as grandes navegações, o império turco otomano ou a Odisseia. São estes os elementos que diferenciam os anos 2000 de seus predecessores, os anos 1000.
Com uma lupa, é possível detectar a (re)virada de milênio por meio do cinema, e na forma como as temáticas e estéticas são abordadas na sétima arte (só sete artes é uma coisa tão anos 1000!).
No mais das vezes, trata-se de novas linguagens que são descobertas, usadas excessivamente na sequência até que uma produção use os recursos demais ou os ridicularize de vez, exaurindo assim o modelo em questão e servindo de estopim a outras linguagens.
Os gêneros foram dividos em posts e dias. Acompanhe a palpitante série ao longo da semana.
Veja a programação:
Segunda: Animações
Terça: Fantasia
Quarta: Guerras
Quinta: Heróis
Sexta: Psicopatas
1. Hollywood e anos 1000: Animações
Em 1939 a Disney faz A Branca de Neve e inaugura o gênero em longa-metragem, passam 60 anos, surgem a Dreamworks e a Pixar, acabam com o monopólio do primeiro estúdio, os desenhos se libertam dos contos de fada, começam a ter roteiros originais, Shrek zoa o barraco em 2001 e nunca mais se faz história do tipo Meg Ryan pra criança (veja mais em “Infância, Walt Disney e velhice“)
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