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E essa; Veja explica?

20 de março de 2011

De como a Veja copiou a Time, a Time copiou a Veja, ou ambas copiaram alguma outra coisa igual

A Veja é mesmo uma revista admirável, de conduta jamais condenável e princípios éticos bastante claros. Todos sabemos.

Dia destes, porém – pouco antes, no caso, do terremoto-tsunami que devastou o Japão na semana passada, explodiu o reator de uma das usinas do país e trouxe novamente à tona a discussão e o medo da energia nuclear -, estava eu pesquisando por razões outras os eventos do acidente na usina de Chernobyl, e me deparei com uma matéria um tanto intrigante da referida revista, publicada no mesmo 1986 do incidente na então ainda União Soviética.

Bem. Vamos por partes.

Esta era a capa da edição em questão. Mais precisamente, de 7 de maio de 1986 (o acidente havia acontecido no sábado da semana anterior, 26 de abril):

E este, o começo da matéria:

Na manhã de segunda-feira da semana passada, os engenheiros da usina nuclear de Forsmark, a mais moderna e segura da Suécia, não acreditavam no que viam. Uma inspeção de rotina nas roupas de seus 600 funcionários indicava a presença de níveis altos de radioatividade…

– Fosmark?! – pensei. – Não era Chernobyl?

Poucas linhas adiante, no entanto, ao melhor estilo detalhado e não-óbvio jornalístico, descobria-se que foi dali, dessa Fosmark, na Suécia, que saíram os primeiros alarmes de que havia uma nuvem de radiação vindo de algum lugar da Europa. Foi só horas depois do aviso sueco, e já dois dias passados da explosão, que o governo soviético admitiu e informou ao mundo que um incidente havia ocorrido na usina ucraniana de Chernobyl, na cidade de Kiev.

O texto completo – intitulado, ainda em tempos de Guerra Fria, “A explosão vermelha” – pode ser lido aqui. (Os mais preciosistas podem ainda folhear toda a referida edição no acervo digital da revista, um arquivo completo e totalmente aberto de seus 53 anos de vida e que, bem ou mal, merece a visita).

Para o azar da Veja, porém, a minha pesquisa naquele dia havia sido bastante completa. Logo depois de encontrar todo o tipo de informação de que precisava na matéria da publicação brasileira (muito boa, por sinal!), fui também checar o igualmente disponível acervo da revista norte-americana Time (outra, esta sim, que vale sempre consultar para o caso de qualquer pesquisa histórica do século 20. As matérias sobre Beatles nos anos 60, por exemplo, sobre as quais já escrevi aqui em outro post, são imperdíveis).

Pois bem. A capa da Time daquele mesmo maio de 1986, datada do dia 12:

Pegou?

Agora as duas junto, para ficar mais fácil:

Bem. Primeira moral da nossa história: a capa da Veja parece só uma versão tupiniquim da mais hermética, clean e direto-ao-ponto Time. (Além de ficarmos sabendo que, naquela semana, o segundo assunto mais importante nos Estados Unidos eram as viagens do presidente Reagan e no Brasil era um surto de dengue, claro.)

Até aí, tudo bem. Esta não foi a primeira, nem a segunda, nem a última vez em que uma revista brasileira – país de mercado editorial até hoje ainda incipiente em comparação aos grandes percursores norte-americanos e europeus – se inspirou livremente em uma similar gringa para fazer seu trabalho artístico.

Qual não foi minha surpresa, no entanto, quando, ao começar a leitura, uma mesma palavra me chamou a atenção: “Fosmark”, a intrometida usina sueca!

Daí para os próximos parágrafos, eu lia em choque, apenas em versão agora em inglês e um pouco mais estendida, a mesmíssima historinha, número a número e evento a evento, da usina nuclear da Suécia detectando que havia radiação vindo de algum lugar e logo mais o governo de Gorbachev admitindo que era de lá.

Segue o trecho (a matéria na íntegra está aqui):

The first warning came in Sweden. At 9 a.m. on Monday, April 28, technicians at the Forsmark Nuclear Power Plant (há!) noticed disturbing signals blipping across their computer screens (…) The engineers lined up some 600 workers at the plant and tested them with a Geiger counter: the workers’ clothing gave off radiation far above contamination levels. Clearly, something was wrong — terribly wrong.

Se relerem, lá em cima, o trecho que transcrevi da matéria da Veja, verão logo que se trata de um livre tradução não literal mas bastante parecida. Se, ainda, clicarem no link que postei para a íntegra de cada um dos textos, e lerem toda a primeira parte de ambas, verão que estão contando absolutamente a mesma coisa, apenas com as devidas diferenças de ordem, detalhismo e linguagem (já que, embora extensa, a matéria da Veja é ainda bem menor que a da Time e está devidamente adaptada ao seu público brasileiro bem menos leitor que o americano).

Ambas, nesta introdução, falam da tal da Fosmark fazendo o teste de radiação nos 600 funcionários; em Finlândia, Dinamarca e Noruega também detectando radiação em suas áreas; em todo o mundo esperando satisfação do lado leste da Europa (de onde estava vinha o vento), e, finalmente, do governo soviético informando um vazamento em uma de suas usinas seis horas depois (sim, precisamente seis horas, segundo as duas revistas).

Bem, é uma forma bastante peculiar para se começar uma matéria e ser apenas coincidência que duas pessoas em todo o mundo a tenham pensado igual.

De qualquer forma, se duas pessoas de fato o pensaram, dificilmente saberemos quais foram – nenhuma das duas matérias é assinada. Nenhuma, se quer, faz menção a ter usado algum material oficial, de divulgação ou de publicação parceira, como é comum hoje.

A impressão primeira que se tem, ao começar a ler, é de que o resto todo de ambos os textos será apenas uma versão português-inglês da mesma coisa. Li-os cuidadosamente, no entanto, antes de fazer qualquer acusação, e não são.

Ambas tem a mesma ideia geral (lembremos, estamos em um mundo que ainda tem muro de Berlim!): puxar a matéria mais pela falta de responsabilidade dos malvados soviéticos ao sonegar informações durante uma crise de proporções internacionais do que pelas causas, consequências e gravidade do acidente em si. As duas, no entanto, correm por rumos próprios, encadeando uma ordem diferente de acontecimentos, citando exemplos particulares e destacando o que para cada um de seus países seria mais relevante.

A Time, por exemplo, passa um bom parágrafo explicando que as usinas norte-americanas usam tecnologias diferentes e portanto mais seguras. Já a Veja está mais preocupada em dimensionar coisas como dizer que a nuvem de radiação que saiu da Ucrânia e chegou até à Itália equivale a uma área “que vai de São Paulo ao Ceará”.

De qualquer forma, ora aqui ora ali, há trechos que, se não se repetem integralmente, parecem bastante similares nas informações que prestam. Alguns exemplos:

VEJA
…Os soviéticos diziam precisamente o contrário. Desde o momento em que admitiram o desastre, fixaram-se na versão de que o problema fora controlado, com a perda de duas vidas e a existência de 197 feridos.

TIME
The Soviets went further. In a three-minute news brief on TV, an announcer said: “Some news agencies in the West are spreading rumors that thousands of people allegedly perished during the accident. It has already been reported that in reality two people died and only 197 were hospitalized.”

Ou:

VEJA
“É inaceitável realizar um programa nuclear com padrões de segurança tão baixos”, protesta Birgitta Dahl, ministra da Energia da Suécia.

TIME
Said Swedish Energy Minister Birgitta Dahl: “We shall reiterate our demand that the whole Soviet civilian nuclear program be subject to international control.”

Ou:

VEJA:
Numa declaração surpreendente, o segundo-secretário da embaixada russa em Washington, Vitaly Churkin, reconheceu que “é evidente que o problema não foi resolvido e, teoricamente, representa uma ameaça para as pessoas na União Soviética, mas nós estamos tentando controlar a situação“.

TIME:
In a deft and tough- minded performance, Vitali Churkin, second secretary of the Washington embassy, offered little new information but acknowledged that the crisis was not yet over. “Definitely there has been an accident which has not been liquidated yet and theoretically poses a threat to people outside the Soviet Union,” Churkin said. “We are still trying to manage the situation.”

Ou:

VEJA:
Contrastando com a serenidade da burocracia russa, ouviam-se sinais de desespero vindos de Kiev. “Você não pode imaginar o que está acontecendo aqui, com todas essas mortes e o fogo“, disse um radioamador soviético a um colega japonês. “É um verdadeiro desastre. Milhares e milhares de pessoas estão fugindo. Eu estou a 30 quilômetros de distância da usina e não sei o que fazer”, dizia o russo, que foi ouvido na Holanda pelo monitor de rádio Annis Kofman.

TIME:
On Tuesday, Annis Kofman, a Dutch amateur radio enthusiast, reported picking up a broadcast in which a distraught ham operator near Chernobyl announced that two units were ablaze and spoke of “many hundreds dead and wounded.” The man cried, “We heard heavy explosions! You can’t imagine what’s happening here with all the deaths and fire. I’m here 20 miles from it, and in fact I don’t know what to do”.

Não são muitos os exemplos além destes em todo o resto das matérias, mas já há novas morais da história que podemos especular:

a) A Veja copiou partes do texto da Time.

b) E por que não? A Time copiou partes do texto da Veja.

c) As duas copiaram as mesmas coisas de alguma outra matéria de jornal, agência de notícia internacional (se é que este conceito já existia no mundo pré-internet de 25 anos atrás) ou de alguma espécie de comunicado oficial que algum governo envolvido possa ter emitido naquela semana.

d) Ambas pesquisaram as mesmas coisas, entrevistaram as mesmas pessoas e selecionaram as mesmas frases para destacar.

Bem. Enquanto nem Veja, nem Time, nos dão uma explicação, pode escolher a sua alternativa.


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7 Comentários leave one →
  1. ro scrivano permalink
    29 de março de 2011 01:29

    july,
    mas e as datas de publicação das revistas?
    qual saiu antes?

    • Juliana Elias permalink*
      29 de março de 2011 14:57

      puts. isso me intrigou também! A Veja, como sabemos, sai no sábado, e a data que colocou é da quarta (7/mai). A da Time (12/mai) é só da segunda feira-seguinte, mas não sei quando ela saiu..
      Por isso as opções b) e c) do texto! rs. elas eram sinceras!
      Mas acho improvável a Time ter copiado a Veja nao (até porque os trechos parecidos, na Time, são mais compeltos que na Veja)?..

  2. 8 de junho de 2011 11:56

    Já havia agências de notícias, sim. É provável que ambas as revistas tenham bebido da mesma fonte.

    De qualquer forma, fazer tradução de publicações internacionais não é, de todo, um expediente incomum em revistas. Desde que, claro, tenha-se o cuidado ético de informar ao leitor de que se trata de uma tradução de um artigo estrangeiro.

  3. 1 de julho de 2011 12:27

    A veja copiou…a Time naquela época nem sabia o que era veja…(nem sei se hoje já sabem). De qq forma, isso é bastante comum, não só a veja faz, mas a folha, globo, etc. A veja nessa época estava iniciando sua decadência, tinha perdido todos os grandes jornalistas e começava a era sem vergonha q está prestes a ter seu fim

  4. Rogério permalink
    31 de agosto de 2011 16:59

    Se a Time realmente saiu depois, a alternativa A fica excluída. A Veja não poderia ter simplesmente copiado a Time. Parte da explicação está nas agências de notícias, que já existiam e eram extremamente fortes.
    Há uma outra explicação, que pode ser complementar. Na época, existiam 3 ou 4 correspondentes internacionais brasileiros na Europa e nos EUA. Eles trabalhavam mais o menos da mesma forma que hoje. O sujeito acorda, lê os jornais, recorta informações e anota as primeiras fontes para quem ele pode ligar. Aí ele conversa com outros jornalistas (ahá) que estão (ou não) cobrindo o tema e faz a matéria.
    Então fica assim: saiu na agência+saiu no jornal Europeu+fonte disposta a falar+jornalista da Time compartilhou informações e opiniões. Resultado: muitas informações e até aspas semelhantes.
    Bem, é a minha teoria.

    • 31 de agosto de 2011 17:28

      É. Deve passar de alguma forma por agências e comunicados internacionais. Acho que eles todos deviam xupinhar muito de coisas que foram saindo na TV ao longo da semana, e no rádio tambem.. pronunciamentos oficiais, e coisas do genero.
      — De qualquer forma, mesmo com a data mais pra frente, acho que não faz sentido a Time ter saído depois. Anotem: a Veja está datada em 7 de maio, uma quarta. A Time em 12 de maio, a segunda-feira seguinte. Mas o acidente aconteceu num sábado, 26 de abril, ou mais de duas semanas antes da data da Time. Não faz sentido mesmo a revista ter saído tão depois…

      Maaaas.. ainda: o que explica as introduções serem idênticas? Toda a histórinha de como os engenheiros da Suécia detectaram radiação, inspecionarem os 600 operários.. Não usa aspa de ninguém. É narração livre – e narração de um episódio superespecífico. E a da Time, neste trecho, é mais completa e mais comprida que a da Veja – então, se foi o caso de alguem ter copiado mesmo, foi a Veja, não a Time.

      • Rogério permalink
        31 de agosto de 2011 18:28

        Ok, isso vai ser um meio-chute. Um dos problemas de Chernobyl foi a demora em divulgar o que tinha ocorrido. Levou dois dias para qualquer coisa ser divulgada e provavelmente mais um tempo para o mundo se dar conta do tamanho do desastre. O comunicado soviético tinha duas linhas.
        Quando a edição da Time de 5 de maio fechou, é provável que não houvesse informação suficiente para fazer uma capa. O estranho mesmo é que não tem nada na edição inteira de 5 de maio.
        Dois dias depois, a Veja conseguiu fazer a matéria, correndo e menos completa do que a Time faria na edição seguinte. Eles copiaram? Sim, copiaram do resto da mídia. Havia pouca informação, então as maneiras de começar ou contar a história eram limitadas. Vários jornais, como o NYT, deram destaque para os suecos simplesmente porque foram eles que identificaram primeiro o problema. Então começar com os suecos era meio feijão-com-arroz.
        Quando a Times saiu com a matéria, mais informação havia sido apurada. Mas os suecos ainda eram o começo da história e as fontes ainda eram limitadas, daí as semelhanças.
        Agora, é fato que todas as grandes revistas brasileiras ainda copiam descaradamente o que sai lá fora. Pensar pra quê?

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