Skip to content

Titles – O moralismo e a incrível indústria da tradução de títulos de filmes

18 de agosto de 2011

Juliana Elias.
Com Carlos Valim 

Que o Brasil sempre foi um tanto quanto desastrado na hora de traduzir os títulos de filmes lançados aqui, todos já sabemos.

Dos anos 80 para frente, principalmente – quando não só o mundo ficou naturalmente cafona, mas também o cinema, misturado ao recém-criado videocassete, se popularizou como programa-pipoca de massa – foi uma enxurrada. Num misto de livre adaptação, licença poética e uma mania tupiniquim de explicar tudo, alguns se tornaram pérolas clássicas.  Casos como Loucademia de Polícia (ou só Police Academy, 1984), Apertem os Cintos o Piloto Sumiu (ou Airplane, 1980) e o imbatível Meu Primeiro Amor (que, quando chegou no My Girl 2, 1994, virou Meu Primeiro Amor 2! Oi?).

Mesmo os pretensos a sérios padeceram do mal, como o mirabolante Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977), Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003) e o coitado do Amor sem Escalas (Up in ther Air, 2009), que fez um monte de rapazes perderem um ótimo filme por acharem que fosse uma comédia romântica.

Bastante gente já escreveu sobre isso, como o CinePop, que arriscou um ranking dos melhores (ou piores, claro), e este quase-glossário com todas as livres adaptações e o que seriam suas traduções literais.Mas, pinçando um período anterior a isso, e de traduções igualmente autônonomas e infelizes – algo entre os anos 40 e 60 -, uma coisa nos chamou enormemente a atenção: um rançoso e insistentemente recorrente toque de moralismo. São títulos que chegaram aqui, sem nenhum razão de ser em sua origem, com umas expressões um tanto canônicas como “pecado”, “rebeldia”, “deus”, “diabo” “vender a alma” e umas outras. Isso quando o sentido do novo nome não virou todo ele um julgamento e condenação completos aos coitados dos personagens.

Acompanhem:

A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965)
O exemplo mais pitoresco, também por ser um dos mais conhecidos (e, justamente por ser conhecido, acabar passando incólume). Ou não é a cara de um país recém-entrado numa ditadura, entre pânicos políticos e marchas da família com deus, trocar “música” por “rebeldia”?

A Malvada (All About Eve, 1950)
Além de sair de cara apontando o dedo pra Eve – a jovem atriz que consegue entrar e mudar a vida de uma grande diva do teatro de quem é fã -, o título brasileiro de quebra ainda estraga a história, já que a pobre da Eve, até segunda ordem, é um doce.

O Pecado Mora ao Lado – The Seven Year Itch (1952)
O nome do filme que imortalizou a Marilyn com o vestido voando seria algo como “a coceira dos sete anos”. Na história, é também o título do livro que Richard, o protagonista, está lendo quando sua esposa viaja e, ao mesmo tempo, toda uma Marilyn Monroe muda pro prédio. O livro era sobre a incidência de traição no sétimo ano de casamento. Em inglês, chamaram de “coceira”. No Brasil, ficou “pecado” mesmo.

Marcado pela Sarjeta
(Somebody Up There Likes M
e, 1956)
Ou de como despencar do céu ao chão mais rasteiro em apenas um título. O filme conta a história real de Rocky Graziano, um boxeador que nasceu pobre e errado, deu a volta por cima e virou vencedor. O nome original (dado pelo próprio Graziano à auto-biografia que inspirou a produção) escolheu o triunfo para destacar. Já a versão brasileiro não perdoou todo o resto da trejetória, que passa por gangues de rua, desentendimento com o Exército e anos de prisão.

Quando duas mulheres pecam (Persona, 1966)
Pois é, nem os cúmulos do cult se livraram. O filme de Bergman expõe uma complexa e lasciva relação entre uma atriz que se torna muda após um espetáculo e a enfermeira encarregada de tratá-la. Bergmen toma o “persona” da filosofia e da psicanálise para batizar o roteiro, que destrincha a fundo a relação das pessoas com a personalidade própria e a alheia. No Brasil, sai a psicanálise, entra ele de novo – o pecado.

Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945)
Sente a dramaticidade do título! FA-RA-PO-HU-MA-NO! O filme é um belo dramalhão de fato, mas suficientemente realista, sobre um escritor alcoolatra um tanto fracassado. O “fim de semana perdido” a que o nome se refere é aquele em que se passa a história, quando, entre flash backs e decepcções de toda sua vida, o escritor volta a beber após dez dias de sobriedade.

O Homem que Não Vendeu Sua Alma
(A Man for All Seasons, 1966)
O filme, na verdade, já era uma grande lição de moral e costumes: conta a vida de Thomas More, chanceler do Rei Henrique VIII, no século 16, que preferiu abdicar do cargo e ser perseguido a referendar o divórcio que o rei queria de sua esposa. O cara foi até canonizado quatro séculos depois. O nome original – uma expressão como “um homem que serve de exemplo em todas as situações” –, foi retirado de escritos da época sobre More. No Brasil já trocaram logo por “vender a alma” e chutaram o balde.

Os Brutos Também Amam (Shane, 1953)
Um título só com o nome do personagem e pronto: Shane é um pistoleiro misterioso que aparece do nada, resolve ajudar uma humilde família a enfrentar coronéis opressores e conquista o amor desde o filho pequeno até a esposa da casa. Mas não basta ser cowboy, tem que ser bruto! Coisa que se caísse no Twitter, hoje, podia até ser bullying e dar numa Parada do Orgulho Bruto. Ou os brutos não podem amar também, não?!

Vício Maldito (Days of Wine and Rose, 1962)
Tanto no quesito conseguir só termos moralistas em duas palavras, quanto em acabar com qualquer poesia, “Vício Maldito” (“vício”, e “maldito”, num título só?!) ganha, definitivamente. A sutileza do vinho e das rosas do inglês caía como uma luva de pelica para a história do despontar do amor seguido da decadência de um casal de alcoolatras. “Vício Maldito” cai como uma chibatada, no máximo.

A Caldeira do Diabo (Peyton Place, 1957)
O filme se passa nos tempos de Segunda Guerra nessa Peyton Place, uma cidadezinha pacata e bucólica de interior. Mas os casos pesados que vão se revelando de traição, estupro e suicídio desmoronam o way of life do lugarejo, e fizeram do filme um frisson de público e crítica na época. No Brasil, “caldeira do diabo”, é claro!

Uma Rua Chamada Pecado
(A Streetcar Named Desire, 1951)
Esse nem de longe é o nome mais esdrúxulo que já se deu a um filme no Brasil, mas sempre foi minha tradução bizarra preferida – justamente porque é total e assumidamente desnecessária. Me diz: pra que diabos botar “rua”, e “pecado”, se “bonde” e “desejo” já estavam ótimos?! Foi da discussão desta tradução, aliás, que nasceu este post. Afinal, vocês sabem: “pecado” é só um outro nome que inventaram para “desejo”.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: