Skip to content

Novelas, mulheres e idade

30 de janeiro de 2013
Avenida Brasil

Adriana Esteves, 41, como mãe de Cauã, 32.

Assistir novelas, quando você não é nem assíduo, nem grande potencial de público alvo do gênero, pode ser uma aventura.

Desde o advento da Internet, praticamente rompi o meu relacionamento sério com a TV e muito poucas vezes volto a ela desde então. Daí, talvez, me embasbacar com algumas coisas como se elas não tivessem estado aí desde 1500, acaso Pedro Álvares já tivesse trazido TVs para trocar por Pau-brasil.

Outro dia foi com uma ceninha boba da atual novela das oito (não vou nunca conseguir de chamar de “das nove”!), “Salve Jorge”. Nela, uma Cléo Pires estonteante de óculos escuros passeia pelo Leblon (com certeza era o Leblon) e tromba com uma espivitada Cissa Guimarães, numa ensolarada tarde de um dia de semana qualquer em que, naturalmente, nenhuma das duas tinha o que fazer (já notou como novela não tem diferenciação de dia de semana para fim de semana? Tanto faz o dia porque, salvo os personagens do núcleo pseudo-pobre que têm um bar – sempre tem esse núcleo -, ninguém trabalha. Homens são donos de empresas para onde nunca vão e esposas passam o dia à mesa do café, almoço ou lanche da tarde).

Bem. Cléo e Cissa, amissíssimas, optaram por passear pela praia do Leblon e sentar para tomar uma água de coco. Cléo, que na novela chama Bianca, tinha acabado de abandonar um marido e chegar da Turquia. “E por que?!”, pergunta Cissa. “Olha, teve uma hora que eu me vi me forçando a gostar de varrer uma casa!”, responde a linda e emancipada Cléo, endossadíssima pela colega, após discorrer sobre o erro que foi abrir mão de sua vida livre e cheia de Leblon e águas de coco na praia do Rio em troca dum mala qualquer da Turquia, onde mulheres varrem chão.

Longe de mim querer perpetuar o papel das mulheres como varredoras de chão, entre outros que sejam, na Capadócia, o reino mágico e distante da vez para onde os cariocas de Glória Perez voam de ponte aéra conforme a necessidade da próxima cena. Mas não precisa também ir até a ponta do outro reino mágico e distante onde varrer um chão é o fim da dignidade humana, né, Cléo?

Se ela, em vez de um turco, tivesse casado com um bonitão descolado de Madrid, de Paris, Nova York ou qualquer outro desses lugares de mão de obra não-barata e sem todo aquele aparato também perpetuado por novelas latino-americanas de mansões com motoristas, cozinheiras e empregadas uniformizadas que servem chá, ela teria igualmente que varrer o chão da própria casa.

Outro susto de minha esporádica aventura com TVs foi ter tido, em 2011, a sempre entusiasmante oportunidade de rever, no Vale a Pena Ver de Novo, “Mulheres de Areia”, de 1993. Bem, “rever” é um termo muito forte, mas o pouco que deu para pescar nalguma TV de consultório de meio de tarde foi o suficiente para repensar a novela do mundo pré-internet.

Todos lembram o famoso enredo: Ruth, uma humilde e doce filha de pescadores, se apaixona pelo filho de milionários Marcos. Só que Ruth tem uma irmã gêmea muito muito má, a Raquel, que seduz seu namorado, leva ele embora e quase estraga o final feliz de todo mundo.

Então, vamos lá. De novo: o Marcos gosta da Ruth, conhece a Raquel, resolve largar a Ruth pela Raquel, e a má fica sendo só ela?! Ah tá.

Enfim. Poderia, se me esforçasse, discorrer sobre tantas e tantas outras pérolas dos contos-de-fadas distorcidos da novela brasileira e da maneira como eles fazem a manutenção de um sistema em que emancipação feminina é algo entre arranjar um bom marido, tomar chá com as amigas no meio da tarde e ter alguém de uniforme para servi-lo.

Mas, por ora, quero me ater à minha tendência teledramatúrgica preferida do momento: uma geração ridiculamente jovem de mães de mocinhos.

Explico. A alardeada “Avenida Brasil”, predecessora de “Salve Jorge” na faixa das oito-nove, já foi um lindo exemplo. Enquanto o Brasil acompanhava vidrado as reviravoltas de Nina e Carminha, eu não conseguia deixar de questionar a grande revelação: se a Carminha era a verdadeira mãe de Jorginho (o pobre moço que passou a vida achando que era adotado),  a Adriana Esteves não estava muito nova para interpretar a mãe dum Cauã Reymond, não?

Bem. Se a ficção tivesse qualquer preocupação de coincidência com a realidade, Adriana, que nasceu em 1969 e estrelou a novela aos 41 anos, teria que ter tido o Cauã – nascido em 1980 e hoje um marmanjo de 32 – com nada mais nada menos que 11 anos de idade. Nada mal para o Marcelo Novaes né? Que interpretava o boa-vida Max, foi por fim revelado o pai do moleque, é de 1962 e teria que ter catado a pobre da moça de 11 anos quando estivesse com 18 para – ufa! – chegar a 2012 com um filho do tamanho do Cauã.

Lá no núcleo bairro-simples-onde-as-pessoas-trabalham-no-bar, Heloísa Perissé, 46 anos, tinha um filho de 26 (interpretado por Bruno Gissoni) – uma minimamente aceitável margem de 20 anos de um para o outro.

salve jorge

Dira, 42, mãe de Nanda, 26, mãe de Luiz, 7

Na famigerada “Salve Jorge”, a história se repete. A estreante Nanda Costa, que interpreta Morena, a moçoila do Morro do Alemão que protagoniza a novela, é de 1986, uma jovenzinha de 26 anos. E quem é sua mãe? A quase tão jovem quanto Dira Paes, do mesmo 1969 que Adriana Esteves e hoje com honestos 42. Teria que ter tido, neste caso, a filha com 16 – outra margem, ao menos, biologicamente viável. Isso, ainda, sem entrar no mérito de, aos 42, a Dira já ter um neto de 7!, filhote que Morena também teve que conceber entre os 18 e 19 anos para que a matemática feche.

Lá no núcleo da Capadócia, mais uma barbaridade: Betty Gofman, do alto de seus 47 anos (ela é de 1965), além de ter que arranhar um sotaque ridículo misturado com umas expressões em turco, tem ainda que carregar a onerosa missão de ter uma filha apenas 12 anos mais nova – Ayla, ou a atriz Tania Khalill, de 1977, uma linda moça de 35 pagando de 20 na trama.

É claro que na Turquia, no Morro do Alemão, no lixão onde a tal Carminha teria crescido e em tantos outros lugares do mundo acontecem desvios como os das meninas estabanadas que engravidam aos 16 ou mesmo as aberrações de crianças de 11 dando à luz outras crianças.

Mas dada a histórica despreocupação das novelas com verossimilhança – dona de coisas estapafúrdias como pontes aéreas Brasil-Turquia e milionários tapados que não conseguem discernir uma gêmea da outra -, duvido que o casting das referidas produções tenha ido tão longe.

A mim, fica a triste impressão de uma ficção (desta vez sim, coincidente com a realidade) que não permite à mulher o direito de chegar à meia idade em paz. Todas as nossas mães citadas aqui, para que não tivessem que ter tido seus filhos antes dos 20 (de onde já pressupomos que suprimiram de sua juventude bons anos de estudos, trabalho e diversão), teriam que na atualidade de sua novela terem sido interpretadas por atrizes lá pelos 50 anos ou mais. Mas em que geladeira estarão todas elas guardadas enquanto isso?

jornal nacional

Bonner, 49, Fátima, 50, e Patrícia Poeta, 36.

Não é só nas novelas, porém, que reside essa espécie de exigência velada pela juventude eterna feminina. Já ouvi por aí, por exemplo, com mais tristeza do que espanto, o boato de que Fátima Bernardes, 50, âncora do Jornal Nacional há 13 e casada com Bonner há quase 23, deixou a bancada do programa e deu lugar a uma Patrícia Poeta de 36 depois que a emissora começou a receber uma série de cartas sobre a apresentadora. E dizendo o que? Que ela estava ficando velha.  E por que, senhores telespectadores, estaria ela ficando velha e o Bonner, logo ali do lado e apenas um ano mais novo, não? 

Infelizmente, a disparidade entre o branco dos cabelos do homem e da mulher não é exclusividade apenas do telejornal da Globo e se repete em praticamente todas as bancadas. No Jornal da Record, Celso Freitas, 59, comanda o noticiário ao lado de Ana Paula Padrão, 47. Joseval Peixoto, 75, acompanha uma Rachel Sheherazade de 39 no SBT Brasil e, no Jornal da Band, a dupla é cumprida por Ricardo Boechat, 60, e Ticiana Villas Boas, 32.  É uma média – já considerando Bonner & Poeta – de 22 anos de diferença deles para elas. 

E dessa vez sem nem a desculpa da licença poética do reino distante das novelas.

Anúncios
One Comment leave one →
  1. 31 de janeiro de 2013 10:41

    Muito bom. Minha impressão é que o Cauã ainda podia parecer ter uns 26, 27, o que seria um pouco mais sustentável, mas mesmo assim também achava estranho.

    Engraçado essa coisa do reforço de estereótipos e da reflexão sobre a produção de uma épcoa vinculada ao contexto histórico. Por um lado falam sobre as propagandas ‘vintage’ ou revistas femininas antigas e tiram sarro, mas aí vem o Vale a pena ver de novo e o canal Viva reprisando essas novelas normalmente. O que será que isso faz com a cabeça de quem acompanha? (certeza que existe gente que acompanha).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: