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A ticket to ride

10 de junho de 2013
Pq. do Ibirapuera, ponto de ônibus (março/2010)

Pq. do Ibirapuera, ponto de ônibus (março/2010)

Ok. Eu fui estudar. O aumento de 20 centavos, de R$ 3,00 para R$ 3,20, dado a ônibus, metrôs e trens da cidade de São Paulo no último 1º de junho, significa 6,6% a mais. A integração – quer dizer, quem pega metrô e ônibus seguidos – subiu um pouco mais: 7,5%, ou 35 centavos, de R$ 4,65 para R$ 5. Quem, portanto, está no pior dos mundos – ou seja, que usa a integração, duas vezes por dia, trinta dias por mês -, passa a gastar R$ 21 a mais por mês.

Bem. As tarifas, como bem sabemos, ficaram devidamente congeladas por dois anos até as eleições do ano passado, e não eram mexidas desde janeiro de 2011. De lá para cá, a inflação acumulada no país foi de 15% pelo IPCA, o índidce oficial do IBGE. Ou seja, com 15% mais, a tarifa já deveria estar custando R$ 3,45.

Isso nem considera o aumento do poder de compra, quer dizer, da renda das pessoas – justamente uma das principais coisas, além do tomate, que puxaram a inflação dos últimos tempos para cima. A mão de obra, pelo mesmo índice que subiu 15% em dois anos e meio, subiu 10% só no úlitmo ano. O salário das empregadas domésticas, graçasadeus, aumentou 11%. E os serviços – que incluem o boteco, o restaurante, a manicure, o encanador, o motorista e portanto a receita destes pequenos estabelecimentos todos – estão em média 8,5% mais caros que no ano passado, bastante acima da inflação total, que é de 6,5%.

O salário mínimo, que em janeiro de 2011 era de uma miséria de R$ 540, hoje é de uma miséria + R$ 138, ou R$ 678, ou 25,5% mais, ou três vezes o reajuste da integração. Isso significa que quem ganhava o salário mínimo em janeiro de 2011, quando a passagen custava R$ 3, conseguia pagar 180 viagens. Agora, quem ainda ganha o salário mínimo, consegue pagar 211 viagens, já a R$ 3,20.

Quem tem um pouquinho mais de sorte, e ganha não o salário mínimo, mas o salário médio da cidade de São Paulo – atualmente de R$ 1.837, segundo o IBGE, outra miséria – ganha R$ 141, ou 8,3% mais que em janeiro de 2011. E o IBGE já faz o cálculo do ganho real! Quer dizer, este aumento foi na verdade próximo de 23% e já desconta os 15% da inflação e o que essa pessoa perdeu em poder de compra com a disparada dos preços de tudo, menos do ônibus, nestes dois anos e meio. Na prática, então, esta pessoa média hipotética tem hoje R$ 141 totalmente livres a mais por mês, dos quais, infelizmente, passa agora a perder R$ 21 para cobrir o aumento de sua integração – acaso, lembremos, ela esteja no grupo dos que usam a integração, duas vezes por dia, trinta dias por mês.

Sobram ainda R$ 120 para o tomate.

O cobrador do ônibus, por exemplo! O salário dele, depois do último acordo no mês passado, está hoje cerca de 16% maior que em janeiro de 2011. O do pessoal do metrô subiu 23,7% neste tempo. E este aumento todo, a não ser que não queiramos aumentar o salário desse pessoal, cujo piso só agora chegou a R$ 1.300, tem que sair de algum lugar. Se não sair diretamente do seu bolso na catraca (e seu bolso, como já dissemos acima, tem hoje em média 23% mais dinheiro que dois anos e meio atrás), vai sair do orçamento da prefeitura ou do Estado, na forma de subsídio para as concessionárias – o que, em última instância, vem ou do nosso bolso mesmo, na visão egoísta, ou de uma escola, um hospital, um corredor de ônibus,  um viaduto ou do que pudesse estar sendo feito com o o dinheiro que damos do nosso bolso para o governo e que agora vai para a concessionário de ônibus. E isso porque você nem usa ônibus!

É certo que, contabilizando tudo, o gasto com transporte público num país ainda pobre é um ultraje. Para a pessoa que pega a famigerada integração de R$ 5 duas vezes por dia,  trinta dias por mês, esse gasto passa a ser de R$ 300 mensais, ou 16% do salário médio da cidade de São Paulo, ou 23% do piso do cobrador de ônibus, ou ainda inacreditáveis 44,2% do salário mínimo (proporção que, aliás, com o mínimo e a passagem de janeiro de 2011, chegava a 51%).

É certo também que não vale nem a pena se dar à canseira de entrar na discussão infrutífera da qualidade do serviço, tópico que já foi tema de desabafo neste blog quando as passagens aumentaram para R$ 3 e quando eram ainda R$ 2,30!, e que parece que, quanto mais encarece, mais piora.

E o que fica, portanto, de conclusão, dada a onda de protestos (ou vandalismos, a depender dos valores de quem avalia) que o aumento de 20 centavos provocou? Que, em vez de melhorar o serviço,  e equipará-lo à tarifa já alta que pagamos, coisa que a história nacional nos ensina que não vai acontecer, devemos logo é baixar a tarifa e equipará-la ao serviço terrível? Desistir de vez de melhorá-lo e ir comprar incríveis duas garrafas de cerveja com os R$ 21 que nos sobrará da economia (já que, com o preço atual da cerveja, mal dá para inteirar três)?

Eu tenho uma ponta de esperança de que os protestos, ou vandalismos, como queiram, tenham surgido como uma espécie de urgência oprimida que explodiu por cada dia miseravel de cada semana de cada ano da vida da pessoa que vive do transporte publico – o que vai desde a exaustão no trem lotado até a ameaça de estupro enquanto se espera à noite pelo ônibus que não passa, conforme soube que aconteceu na semana passada com uma universitária em Osasco, embora não tenha virado notícia também.

Agora. Brigar por 20 centavos é miséria.

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4 Comentários leave one →
  1. Gabriel Valente permalink
    10 de junho de 2013 15:47

    Concordo muito com o penúltimo parágrafo… parabéns pelo texto…

  2. Carlos permalink
    13 de junho de 2013 19:48

    O preço das tarifas de ônibus e metrô de São Paulo chegaram ao patamar de R$ 3,20 neste mês de junho. Segundo a prefeitura, caso fosse feito o reajuste com base na inflação acumulada no período, o valor chegaria a R$ 3,40. “O reajuste abaixo da inflação é um esforço da prefeitura para não onerar em excesso os passageiros”, disse. Porém, ao longo dos anos, os reajustes nem sempre seguiram a inflação acumulada, o que gerou um “falso” valor da tarifa do transporte. Veja a seguir, a discrepância entre os aumentos das tarifas em São Paulo, de acordo com a variação do índice IPCA da inflação:
    http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/tarifas-metro-onibus-sp/

  3. Carlos permalink
    13 de junho de 2013 19:50

    O modelo de transporte coletivo baseado em concessões para exploração privada e cobrança de tarifa está esgotado. E continuará em crise enquanto o deslocamento urbano seguir a lógica da mercadoria, oposta à noção de direito fundamental para todas e todos.
    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/113691-por-que-estamos-nas-ruas.shtml

    • 13 de junho de 2013 22:43

      Oi, Carlos. Legal esse info do Terra, eu nao sabia disso. Mas é bom lembrar tambem que em 2004 foi implantado o bilhete unico, o que aumentou bastante o custo tanto dos subsídios quanto da passagem. Fui ver uma outra conta tambem.. pq, na verdade, o IPCA é nacional, e faz a média da inflação de 11 cidades. Os onibus de sp geralmente usam o IPC-Fipe, que é da USP e mede a inflação só da cidade de sao paulo — e de 94 a maio de 2013 ele acumula ainda menos, 275,87%. Reajustada por ele a tarifa, que era 50 cents, nao chegaria nem a R$ 2..

      Quanto ao segundo artigo, do povo do MPL, eu já havia lido, e acho que tem uma argumentação bem fraca em alguns pontos.
      Primeiro. “Perguntamos: e os salários da maior parte da população, acompanharam a inflação?”. Bem, não só acompanharam, como cresceram o dobro, e foram justamente uma das principais coisas que a puxaram na última década inteira. São justamente os números que tentei mostrar aqui no texto.
      Segundo. “A população já conquistou a revogação do aumento da tarifa em Natal, Porto Alegre e Goiânia. Agora só falta São Paulo.” Na verdade, exceto por Porto Alegre, que reduziu a tarifa em abril, as outras duas — como tambem fez campinas, são bernardo e algumas outras –, haviam reajustado pra cima no início do ano e só baixaram de volta depois de maio, quando o governo federal editou uma MP retirando a cobrança de PIS Cofins de transporte urbano do país todo (http://migre.me/f0p2i) – justamente, aliás, para que sp pudesse fazer um reajuste menor, para R$ 3,20 em vem dos R$ 3,30 que havia calculado. Quer dizer, São Paulo, na prática, já fez esta mesma redução que estas cidades que eles citam fizeram.

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