Skip to content

– Me ensina, por favor.

23 de junho de 2013

E então, não mais que de repente, num espaço intergaláctico de sete dias, o que era “vem pra rua, vem – pelo aumento”, tornou-se “vem pra rua, vem – contra o GOVERNO”. O nosso velho e bom “o povo unido jamais será vencido” tinha se mutado para “o povo unido não precisa de PARTIDO”. E o que começou como um protesto pelo aumento do ônibus, em São Paulo, se espalhou pelo país todo, passou para uma espécie de grande movimento ecumênico abarcador de todas as indignações até, finalmente, descambar para um vale-tudo de vontades liderado pelo mote “FORA DILMA” aspirante a impeachment com viés de golpe.

Amparado, vá lá, por outros foras também – “fora renan calheiros”, “fora alckmin”, “fora ronaldinho” (oi?), “fora nome-do-politico-que-lhe-convier”! Mas ela, a presidente, é a maior, por força de lei. Então será também a maior, por força de protesto.

Bem, em eu não sendo nem contra a Dilma, nem contra o Haddad,nem contra o Alckmin, nem contra o Ronaldinho, (contra o Renan há restrições, vá lá), nem contra os partidos, nem contra a instituição de um governo, nem contra qualquer coisa que tenha sido formada, eleita e mantida no poder legitimamente – já incluindo discordâncias diversas que tenho a políticas e escolhas de cada um deles, todas dentro ainda do mesmo processo democrático -, voltei às ruas mais uma vez. Dessa vez, porém, não para protestar. Mas sim para tentar entender o que diabos está acontecendo.

Era quinta-feira, dia 20. Era o sétimo ato organizado pelo MPL, o movimento pró-transporte livre que vinha à frente de tudo, pela revogação do aumento de 20 centavos que sofreram ônibus, metrôs e trens aqui na capital no início do mês. Bem, os tais 20 centavos tinham acabado de ser revogados, é verdade, no dia imediatamente anterior (quarta, 19) – mas “a luta continua!”, já tínhamos avisado. Ficava então mantido o ato, a título de comemoração.

O evento começou às 17h, na Av. Paulista, mas infelizmente só pude chegar lá pelas 21h, quando a grande massa já havia se dispersado, os partidos já haviam se digladiado, um estudante já havia morrido em Ribeirão Preto e sobravam apenas umas poucas centenas de pessoas (sim, hoje a gente já acha centenas pouco).

O que vi, descendo uma Consolação fechada: era um grupo de digamos uns 200, jovens em sua maioria, vestidos de verde e amarelo em sua maioria, pintados na cara muitos deles. Cores, de pele, e origens diversas. A polícia fazia um cordão inerte nas calçadas. Havia cartazes contra a cura gay do Feliciano, outros tantos aos montes contra a PEC 37, uma faixa enorme de “MAIS SAÚDE E EDUCAÇAO”, e claro, eles, muitos, muitos, muitos deles: “fora dilma!”

Gritavam, em um coro uníssono: “hei, dilma, vai tomar no cu”. Daí iam para “o povo acordou”. Daí cantavam o hino nacional (sempre só a primeira parte, é claro. Eu pelo menos continuo me perdendo depois do berço esplêndido). E aí, sempre o mais vibrante quando repetido: “vem, vem, pra rua vem – CONTRA O GOVERNO”. Às vezes paravam e uma espécie de líder da bateria puxava – “QUEM NÃO GOSTA DA DILMA SENTA! QUEM NÃO GOSTA DA DILMA SENTA!”. Todos então agachavam no chão, todos – ficar de pé era gostar da Dilma, não podia – e voltavam a cantar a primeira parte do hino, ou a falar do povo unido, ou qualquer uma das anteriores randomicamente.

Lá fui eu então começar a minha humilde-pretensiosa auto-missão de tentar entender. Puxei um primeiro que estava mais próximo – era o Alan. Alan vestia camisa não-oficial da Seleção, amarela, era negro e tinha rastafari no cabelo comprido. Alan trabalha como vendedor numa loja – “mas eu estou estudando radiologia”, emendou rápido quando perguntei, como se eu fosse gostar menos dele porque não tivesse estudado. Ele gritava e pulava sozinho ao som do “vem pra rua contra o governo.” Toquei em seu ombro e disse:

– Oi, posso fazer uma pergunta?
– Pode, ele disse, empolgado. Tinha algo entre 20 e 25 anos.
– Contra qual governo a gente tá gritando?
– O PT! – respondeu, prontamente.
– Qual PT?
– 
A Dilma! – emendou, mais prontamente ainda.
– Ué. Mas hoje a gente não ia comemorar as passagens de ônibus?
– Então! Mas não pode parar aí! Os ônibus continuam horríveis, precisa de mais metrô!…
– Mas… qual é seu nome?
– Alan.
– Mas, Alan. Quem cuida de ônibus e metrô não é a Dilma.
– Ah, não?

Ah não, Alan??! Jura?

– Não! O ônibus é da prefeitura, do Haddad. E o metrô é estadual, do Alckmin.
– Ah é?
– É.
– Mas tem um monte de outras coisas! Tem esse.. essa.. essa que o pessoal tá falando aí, sabe? A PAC…

PAC?… O Programa de Aceleração de Crescimento?

– A PEC, Alan?
– Isso, a PEC 47!
– 37.
– Essa!
– É, essa tem que discutir mesmo! Mas não foi a Dilma que fez também. Você sabe, né?
– Não foi?
– Não. Foi um deputado de outro partido. (Pronto. É do deputado Lourival Mendes, do PTdoB. Eu não tinha ideia na hora de quem fosse, mas achei melhor não entrar nesse mérito ali com o Alan).
– Mas – continuei -, se você nem sabia o que é a PEC 37, porque você tava aí gritando contra o governo?
– Ah. Era o que tavam gritando né? Aí eu gritei junto.

NÃAAAAAAAAAAAAO, ALAN, NÃAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAO!, eu pensei. Mas não falei.

– Tá. Mas e aí. Se tirar o governo, o que que a gente põe no lugar?
– É… É…

E então, num misto de enorme interesse com uma incrível humildade, ele me segurou no braço, me puxou para fora da multidão, e disse:

– Puts, eu não sei de nada na verdade! Me explica?

Me explica.” Foi o que ele disse. Só eu vejo uma enorme e triste beleza nisso?
Mas voltarei a falar disso mais adiante.

Bem. Fomos para o canto da calçada, para longe do barulho da bateria, e discutimos por uns longos 20 minutos. Ele queria entender coisas como porque o ônibus tinha que aumentar e o que era a PEC 37. Eu falei que a PEC eu também não conhecia direito e que o aumento era por causa da inflação, o que incluía também melhores salários para os motoristas, mas que eu achava importante ter derrubado para chamar a atenção dos governos para o transporte público – “é, eu também acho”, ele falou. E não pareceu que fosse porque outra pessoa estivesse falando. E, para ele, eu perguntei porque estava ali, já que o preço da passagem já tinha caído e que ser contra o governo não era uma coisa que ele ele próprio tivesse tido vontade de gritar.

Eu estou aqui porque eu estou cansado!”, disse. “Você viu que fazer um estádio aqui custou três vezes mais que na Alemanha?”, falou, citando algum estádio específico e números específicos, que não me recordo agora, que ele tinha visto recentemente pelo Facebook. Sim, o Alan tem Facebook, e sim, está lendo sobre o assunto. “Por que eles não pegam esse dinheiro e botam na saúde, na educação, no transporte?”, continuou, exaltado, falando das vezes em que teve que passar no PS, público, ou quando está no trem e os auto-falantes pedem para descer do vagão porque a composição será recolhida. Falou da corrupção, citou o Renan e o Sarney, citou a Copa de novo. “Eles precisam saber! Eles precisam saber que a gente cansou! A gente não quer mais as coisas como estão e não vamos deixar quieto!”

É. O seu porquê de estar ali ao menos ele sabia com bastante clareza.

Bem. O cordão da passeata seguia e nos despedimos. Eu agradeci a ele por conversar comigo e me contar o que ele achava. Ele me agradeceu muito também – “cara, muito muito legal conversar com você! Você está certa! Temos que nos informar!” E se foi para um lado. Eu para o outro. E nunca mais nós vimos e nem mais nos veremos.

Parei em um segundo menino em outra ponta, também gritando e seguindo a bateria. Outros dois amigos dele já se aproximaram, interessados em fazer e responder perguntas também.

Era o Josué. O Josué é corinthiano, moreno, auxiliar de alguma coisa que não me lembro e morador de algum bairro da Zona Leste cujo nome não lembro também – “perto do Itaqueirão?”, perguntou a caipira do centro-expandido que só tem uma referência de Zona Leste. “’É! Bem perto.” Tem lá seus 22 anos, chuto, com margem de dois para mais ou para menos.

A conversa começou igual. Mais igual que pai-nosso em dia de missa: – De qual governo estamos falando? – PT! – Qual PT? – Dilma! – Por que? – A copa, o metrô, a corrupção…

Poxa. De novo o metrô? Mesmo?

– Mas você sabe que o metrô é do governo estadual né, Josué?
– De quem?
– Do Alckmin, que é do governo estadual.
– Ah. Mas o Alckmin e a Dilma estão juntos.

Ouviram?! oalckmineadilmaestãojuntos! E o Covas se contorceu no túmulo e a orelha do Lula ardeu lá em São Bernardo.

E eu, lá na Consolação, aprendi nesse instante a primeira coisa da noite: a falta de informação é muito, muito, muito mais funda do que ter gente que ainda não saiba quanto aumentou o salário do cobrador ou de eu e você estarmos aí discutindo no Facebook a constitucionalidade da PEC X ou Y. Constitucionalidade? Acho que o Josué deve ter ouvido esta palavra na vida tantas vezes quantas nós dizemos “inconstitucionalissimamente” no nosso dia.

– O ônibus, você sabe quem cuida?
– O… Alckmin?, ele arriscou, já percebendo pela auspiciosidade da minha pergunta que não deveria ser a Dilma.
– Não! É a prefeitura! E quem é o prefeito?
– O Haddad.
– E antes dele, quem era?, eu perguntei, na intenção de questionar que é importante lembrar também que o caos do trânsito é uma coisa que vem de longe e não é resultado de um ou de outro político apenas.
Mas a resposta:
– Era o… o… Não sei. Quem era?

O Kassab, Josué! O Gilberto Kassab! Que era vice do Serra, que estava com o Alckmin e não com a Dilma, que era do PFL, que mudou para DEM, que mudou para o PSD e que agora já nem está mais com o Alckmin. Que ficou sete anos na prefeitura, SETE ANOS, saiu há menos de sete meses, aparece em breve como candidato-de-alguma-coisa, e você já nem se lembra mais de quem ele era. Era esse o outro prefeito.

Mas enfim. Resumi só para “o Kassab” mesmo, e ele lembrou. “Ah, é. O Kassab.”

Eu insisti: – “mesmo assim, você quer que tire a Dilma?”

– Tem que tirar! Se a gente tirar ela, o próximo que vier já vai ficar com medo, e não vai mais fazer a mesma coisa.
– Mas não serve a própria Dilma já ficar com medo, e não fazer mais a mesma coisa, já que nós mesmos elegemos ela, e agora ela já viu que a gente pode sair nas ruas?
– Mas eles precisam entender! – ele disse. Entender que não estamos nem tolerantes, e nem para brincadeira, caso ainda não tenha ficado claro, meus senhores.
– Tá. Mas e se tira a Dilma? Quem botamos no lugar?
– Tem que tirar também o Michel Temer e o Renan Calheiros junto – ele respondeu, replicando corretamente as correntes que circulam pelo Facebook (sim, ele também tem Facebook, e, sim, ele também está lendo tudo atentamente) lembrando da cadeia já pré-determinada para a sucessão.
– Não. Mas minha pergunta é depois que tirar todos, todo mundo, quem entra?
– Olha, eu, particularmente, acho que tinha que ser o Joaquim Barbosa – respondeu, repetindo também outra corrente que se multiplica já há algum tempo, e talvez sem saber que o próprio Barbosa já se declarou como eleitor do PT uma vez.
– Mas Josué. A partir do momento que você vem aqui, e fala que quer tirar a Dilma, corre o risco de todos os outros políticos, e todos os outros partidos, entenderem que é só com a Dilma e pronto. Aí vai entrar outro no mesmo lugar, e continuar fazendo as mesmas coisas.

Ele pensou, sem saber se conseguia entender o que eu estava falando.

– Tipo… time de futebol?

TIME DE FUTEBOL! comoeunaopenseinissoantes??!

– Isso! Isso!!! Tipo time de futebol! Digamos que a gente descobre que o Brasileirão é uma putaria, o ingresso é o dobro do preço porque todos os times estão roubando dinheiro, e você vai lá e diz: “Fora Corinthians!” Ótimo. Aí a gente derruba o Corinthians. Mas o Palmeiras, o São Paulo, o Flamengo… todos os outros vão continuar roubando. É como se a Dilma fosse do Corinthians, e o Alckmin, por exemplo, do São Paulo. Só que você está cobrando melhoria só do Corinthians. (Ufa!)

O olho dele mudou de brilho. Ele olhou pra cima como quem completa uma sinapse. E adivinhem o que me disse? – “Me explica?”

E começou a me perguntar e me perguntar. Muitas coisas que eu também nem sabia responder com precisão, mesmo que pareçam tão óbvias – e como é, de qualquer forma, que a gente fica um dia já sempre tendo sabido o óbvio? O que faz o prefeito?, era uma pergunta. O prefeito faz as ruas da cidade, os ônibus, as escolas municipais… E o estado? O estado cuida do metrô, de uma rodovia que liga diferentes cidades, cuida também do trem e da EMTU… E a Dilma? A Dilma cuida das coisas maiores, da inflação, dos grandes programas… E por aí fomos.

O Josué sabia muito poucas coisas de como funciona o nosso sistema político. Mas, como o Alan, quando eu mudava a pergunta para “mas por que você está aqui?”, ele sabia responder fluentemente.

Primeiro”, ele disse, dando início a uma lista que teria muitos itens. Primeiro era a Copa, depois a saúde, depois o salário dos professores – “Juliana!, eu tive professores incríveis, incríveis, e que ganhavam uma miséria!” (sim, ele estudou em escola pública) –, falou da corrupção, ele leu que a PEC quer atrapalhar as investigações, ele se indignou quando o Tiririca foi eleito deputado, ele viu o Lula de mão dada com o Maluf, viu também o vídeo que fala que a Copa do Brasil custou mais que as últimas três Copas somadas (e que usa vários dados errados, espero que ele saiba). “Você acha que eu não gosto de futebol? Você acha que eu não quero uma Copa no Brasil? Mas você viu que o ingresso vai ser R$ 500? Eu não tenho. Eu não tenho R$ 500! A Copa vai vir pro meu país e eu não vou ver”, ele disse. “E o lugar que eu moro (aquele bairro da Zona Leste cujo nome eu esqueci)? Ali é esquecido, não tem nada disso que tem aqui”, o Josué falou, ali na Consolação do meu lado. E contou por fim, com especial exaltação, de um dia em que teve que levar seu pai que passava mal ao hospital do lado de casa – “a gente tem Unimed, mas só atende em Suzano” (não me pergunte por que!) –, e tiveram que ficar duas horas na fila sem serem atendidos, até que seu pai desmaiou. “Eu que tive que segurar a máscara de oxigênio no rosto do meu pai, Juliana, enquanto a gente esperava”, ele contou, com uma metralhadora cheia de mágoas que apontaria para a cara de qualquer um que fosse a pessoa que passasse na frente dele naquele momento em que ele segurava a máscara no rosto de seu pai desmaiado em uma fila de espera de um pronto socorro lotado.

– É por isso que eu estou aqui.


E então eu aprendi a segunda coisa da noite – que na verdade eram as coisas todas que todos nós sempre soubemos que estão erradas, e que independem do partido seguinte que suceda o anterior e são um sistema inteiro que injustiça uma massa gigante de pessoas em proporção diretamente oposta ao seu grau de oportunidades. A diferença agora era: os injustiçados também tinham entendido.

E eu disse para ele – “Agora eu entendi o que você quer dizer, Josué.”


Disse por fim, que esperava que tivesse entendido o meu ponto de vista também – “é, é, pode ser”, ele falou me fazendo troça – e nos despedimos. Pegou meu nome e sobrenome e disse que ia me adicionar no Facebook, “pra gente continuar trocando ideia!” Foi quase uma hora conversando. E, de novo, fui e foi embora.

Falei depois com mais duas pessoas. Perguntei para um menina pelo que ela estava ali, e ela disse: “Você viu as cinco causas do anonymous no facebook? A primeira é a PEC 37, a segunda a saída do Renan Calheiros, a terceira… Quais eram as outras mesmo, André?” E chamou o André, que me completou a lista, que eu já tinha visto, aliás, e que pode ser checada aqui, além de em mil outros lugares. O André é branco, loiro, olhos azuis e analista de sistemas. Ele e seu grupo de amigos estavam ali para não deixar que a força criada nas marchas dos vinte centavos, pré-revogação do aumento, se perdesse, e para seguir agora as cinco causas. Mas ele é contra o governo? Ou a governos, acaso o grito de guerra se refira à instituição de uma forma mais genérica? “Não, aí acho que já desvirtuou bastante. Se as próximas forem assim, eu não vou mais”, disse.

Mais ou menos a mesma coisa que me falou o Norberto, um fotógrafo, também branco, 2 metros de altura, morador de Perdizes, e já um pouco mais velho. “Eu fui nas passeatas contra o Collor, tinha uns 17 anos.” Para ele, tem que sair na rua mesmo, mesmo que haja quebradeira, e ônibus deve ser gratuito mesmo – mesmo que ele use carro e prefira metrô. Tinha ido naquela quinta-feira também ainda no embalo da comemoração da redução das passagens, e se houvesse outros atos continuaria indo. “Eu não vejo essa comoção desde o impeachment do Collor, e não tem que parar.” Contra o governo, ou governos? “Ah, isso já é outra história. Eles aqui não sabem o que estão falando.”

E quem, então, está falando – se ninguém, perguntado individualmente, diz que diz?


Por fim, perguntei ainda então o que ele faria, acaso tivesse assim digamos um desejo! E ele e seu colega responderam – “Tem que tirar todo mundo que tá lá, do Congresso, do Senado. Essa é a verdade.”

– Mas isso já existe, né, Norberto?, eu disse. – Chama eleição.

E rimos. E assim fomos embora, já quase meia noite.


E eu, por fim, cumpri a mim mesma a minha arrogante missão de entender o que estava acontecendo?

É claro que não. Primeiro, porque conversei com apenas quatro pessoas, em uma esquina, de uma cidade, de um país inteiro em levante. Segundo porque eu, como disse logo no começo, saí à rua assumidamente com uma opinião – sou contra o “fora-governo-fora-político-fora-quem-passar-pela-frente” –, e isso, de cara, já desvia qualquer entendimento puramente isento que eu pudesse tentar. E, terceiro, entender é uma coisa que estamos fazendo juntos, e aos poucos, com os pedaços que a tecnologia, graças a deus e ao diabo, nos permite juntar dos relatos de cada um. Fatos históricos, ensina a história, se entendem depois de passados.

Difícil portanto esboçar alguma conclusão, mas há impressões que vi e que voltaram comigo.

Eu vi que há gente sim – e como isso torna tão mais fácil! – que, na sua falta involuntária de informação, acaba sendo levada sem munição nem resistência pelo discurso do primeiro que se apropriar do seu desespero (“eu que tive que segurar a máscara de oxigênio no rosto do meu pai, Juliana!”): seja o político, seja o manifestante que lhe promete livrar do político. Seja até mesmo a jornalista que lhe aborda só para saber o que ele está pensando, e lhe atenta para o fato de que pode não ser bem assim.

Mas eu vi uma outra coisa, e dessa eu ainda não tinha tido notícia, não: tanto quanto nós, de lá de nossas escolas privadas e de nossas universidades, de onde temos a obrigação de sair nos preocupando com a sociedade em que vivemos, e que foi de onde saímos para lutar contra a ditadura, pelas Diretas Já ou pelo impeachment do Collor… Tanto quanto nós sempre quisemos mais educação e uma reforma geral para o país, embora nunca assim de forma organizada ou mesmo desorganizada pelas ruas…

Tanto quanto nós, agora são eles que também estão pedindo. Nas ruas, de dentro do ônibus apertado, da plataforma do trem que não passa, da espera lotada do pronto socorro, da porta de sua sala de aula: “me explica?” “me explica?” “me ajuda a entender?” “me ensina?” – “Me ensina. Por favor.”

Que nada mais é do que uma outra forma de pedir educação, só que em primeira pessoa: não para o país. Para si mesmo.

Eu vi dois fazerem isso. Espero que sejam muitos. 

Anúncios
6 Comentários leave one →
  1. sonia aparecida soares guimarães elias permalink
    24 de junho de 2013 23:04

    o Brasil deveria ter mais Alans, mais Norbertos, mais Josués, Mais Julianas e muito, muito menos Dilmas, Hadads, Alckmins, e menos ainda todos os politicos cheio de vicios e de descaso com todos os nossos direitos: transporte, saude, educação e acima de tudo, respeito ao cidadão, aliás cabe aqui uma pergunta: ainda podemos ser chamados de CIDADÃO?

    • 25 de junho de 2013 13:37

      ah, acho que passa menos por tirar os políticos e mais por politizar as pessoas. as pessoas politizadas já são a arma que controla o político, independente de qual esteja à frente

  2. Larissa Veloso permalink
    25 de junho de 2013 23:59

    Adorei o texto, a sua disposição para ensinar, e sobretudo para aprender.
    Me emocionou, de verdade (eu sou meio boba pra essas coisas, rs).

  3. Giovana Mantovani permalink
    27 de junho de 2013 22:21

    …Que texto…bem redigido e sincero. Sutilmente demonstra sua sensibilidade em relação aos jovens. E como esse país (inclusive todos os formadores de opinião)precisa estreitar o compromisso social com essa geração.

Trackbacks

  1. Forças ocultas | Gaveta de Jornalista

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: