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Revolucionários de bolso

7 de abril de 2015

Juliana Elias

diretas ja

Campanha pelas Diretas Já, em 1984

O país está uma bagunça. Dos quebradores de bancos às paradas pelo impeachment, algo acontece desde junho de 2013, quando os primeiros estudantes angariaram uma multidão nacional contra um aumento de passagem, que as pessoas parecem subitamente determinadas a resolver todos os problemas brasileiros de uma vez.

Teria um súbito senso de justiça assolado a população? Teriam agora esses problemas – transporte? corrupção? violência? saúde-educação? – atingido o limite do intolerável, como se de fato existisse um limite abaixo do qual os mesmos problemas pudessem existir sem serem igualmente intoleráveis? Ou seria mesmo apenas uma questão de tempo até esgotar a paciência?

Pode ser. Mas eu arrisco uma outra explicação: o bolso. É como se o panelaço contra a corrupção ou a reivindicação por transporte melhor fossem apenas o detalhe da foto, e um “zoom-out” que pegue o quadro completo mostra com facilidade que há um padrão que se repete em todas as revoluções, mesmo que as bandeiras de cada uma sejam completamente diferentes ou até opostas. E essa semelhança está diretamente ligado às condições econômicas do país e, portanto, à qualidade de vida das pessoas.

E eu desenhei.

pib per capita x revoluções

Clique na imagem para ampliar

O gráfico mostra a evolução do nosso PIB per capita cruzada com as principais rupturas da história política nesse período. A série foi extraída da base oficial de dados do Ipea (para encontrá-la, busque por “PIB per capita a preços de 2013”). É como se expandíssemos o zoom dessa fotografia de 2015 para até 1901. A conclusão é duplamente verdadeira: não há grande mudança política que não tenha acontecido no rastro de uma queda na renda, tanto quanto não houve período minimamente prolongado de queda na renda que não tenha levado a uma mudança na ordem política.

O processo de impeachment do Collor, por exemplo, que levou o presidente à renúncia em dezembro de 92, se desenrolou ao longo do terceiro ano de economia no vermelho. Collor conseguiu com que o PIB per capita não crescesse em nenhum dos três anos que cumpriu de mandato – a renda média chegou ao fim de 1992 7,7% menor que em 89, tendo saído de R$ 18,3 mil para R$ 16,9 mil, em valores atualizados para 2013. E um presidente que faz isso não deveria se dar ao luxo de comprar Fiats Elba com dinheiro público, de desviar US$ 300 milhões para o exterior ou de manter contas fantasmas com o seu tesoureiro. O batalhão de incontentes estará a postos na primeira brecha.

O país das Diretas Já era ainda pior. O PIB per capita caiu 12% de 1981 a 1984, de R$ 18 mil para pouco mais de R$ 15 mil, uma retração média de 4% ao ano. No 1963 em que Jango tentava fazer reforma política, urbana, educacional e agrária, a renda média caiu 2,3% de uma vez só. Ameaça de comunismo? Restauração da democracia? No fim, podemos dizer que foi a mesma coisa que permitiu colocar e tirar a ditadura do poder – insatisfação com a piora de vida.

Sim, porque queda de PIB não é mais do que isso: queda na renda das pessoas, por conta de uma epidemia de desemprego por exemplo, ou então queda do poder de compra mesmo que a renda esteja crescendo, que é o que acontece quando os preços sobem muito e se assemelha um tanto com o que a nossa inflação de 7% ao ano está fazendo hoje com a gente. Por isso a importância de olhar para o PIB per capita, e não para o PIB total, porque de que adianta o total de dinheiro rodando no país crescer se a população está crescendo mais rápido?

Foi o que aconteceu em 2014. O PIB cresceu um simbólico 0,1%, mas, como a população ainda cresce a 0,8% ao ano, a quantidade de PIB, quer dizer, da renda nacional para cada pessoa ficou menor, e também a quantidade disponível de recursos para o governo dar conta de todo o mundo ficou mais apertada. Como para 2015 já se fala em queda de até 1% na economia, estamos falando de um PIB per capita que pode ficar quase 2% menor. E dois anos seguidos de encolhimento, a série ensina, não é bom.

Queda de renda é queda de qualidade de vida: menos lazer, menos cinema, menos cursos e menos educação, menos viagens, menos distração e, no limite, falta do básico – casa e comida. E, ao que parece, as pessoas ficam muito bravas quando isso acontece. Ou então com muito medo. E essas duas coisas, ódio e medo, sempre se mostraram motores historicamente poderosos de combustão.

A crise de 1929 foi o primeiro grande e ainda hoje mais perfeito exemplo disso. A quebra da bolsa de Nova York espalhou depressão econômica por todo o mundo e, dificilmente por coincidência, abriu uma década inteira de endurecimento político. Foi a mistura de promessas de livrar o país do “método comunista de loucura” e da “terrível miséria” que alçou Hitler na Alemanha em 1933, solidificou Mussolini na Itália, Salazar em Portugal e Franco na Espanha.

No Brasil, foram também três anos no negativo a partir de 1929. Só em 1930 a queda per capita foi de 3,4%, embalo pertinente para enfraquecer os cafeicultores do eixo café-com-leite de São Paulo e Minas, angariar o resto do país para empossar o candidato derrotado nas eleições daquele ano e mantê-lo no poder tempo suficiente para que pudesse anular futuras eleições e fazer a própria constituição.

Mesmo os grandes marcos históricos não fogem à regra. A Revolucão Francesa, por exemplo, antes de uma sangrenta batalha pela liberdade, foi uma grande revolta de camponeses por conta do preço do pão, devastado pela grande seca que acabou com o trigo da França em 1788 e 89 e que, no entendimento da rainha, certamente não teria o mesmo efeito sobre os brioches. Foi também o preço do pão e o vazamento de barris de dinheiro para o front da Primeira Guerra que jogaram a Rússia na miséria e inflou suas multidões a acabarem com o czarismo em 1917. Ou o que mais explicaria as pessoas resolverem neste ou naquele ano darem um basta a um sistema que era injusto há mais de 200?

Nos Estados Unidos, um centro de pesquisa de Massachusetts chegou até a elaborar, em 2011, um modelo matemático correlacionando o preço dos alimentos ao estouro de protestos. O ponto de partida havia sido a explosão da “Primavera Árabe”, a série de protestos contra os regimes autoritários que dominavam há décadas países do Oriente Médio e norte da África. E como ela começou? Com uma grande liderança nacional gritando “liberdade” como o William Wallace no filme do Mel Gibson? Mais ou menos. O marco inicial da Primavera Árabe foi na feira. Ele é creditado a um comerciante da Tunísia que, em dezembro de 2010, sem como continuar pagando as propinas crescentes cobradas por policiais para que pudesse manter sua barraca de verduras, ateou fogo ao próprio corpo e inspirou todos os outros revoltados do país.

Food Price index

Pesquisadores correlacionaram o estouro de protestos do mundo árabe com o índice de preços dos alimentos, da FAO.

“As observações sugerem que os protestos podem refletir não só as falhas políticas dos governos, mas também a piora súbita na situação de populações vulneráveis”, disseram os pesquisadores. Um ano antes de tudo isso, a revista Economist, que todo final de ano faz uma edição com as principais projeções para o próximo, já dizia, na edição de 2009, que “2010 seria um ano de gerenciamento de raiva”. “Uma convergência de calamidades pode se provar politicamente tempestuosa: aumento acentuado do desemprego, pobreza e desigualdade em alta, uma classe média enfraquecida e o preço alto da comida em muitos países”, dizia o artigo. Ela até desenhou um mapa, este abaixo, com os países mais vulneráveis a demonstrações de “raiva” nos próximos anos.

0087835_mapa_economist_2009 Bem, ao fim de 2010 teríamos a Primavera Árabe explodindo na Tunísia, em 2011 viriam os “Ocuppys” do mundo desenvolvido em desemprego, em 2013 era a vez de também uma alta de preços mexer com os humores de uma classe média ainda recém-instaurada no Brasil, em 2014 os ucranianos quebrarem Kiev e por aí vai.

Antigamente faziam-se golpes. Mais antigamente ainda cortavam-se as cabeças. Nas democracias sólidas elegem-se novos partidos, ou as oposições se fortalecem até o ponto, no extremo, do ingovernável. É o que acontece hoje, por exemplo, nos Estados Unidos, onde, tanto quanto Dilma, Obama foi reeleito por 51% a 47% dos votos e não consegue botar nem leis ambientais para frente porque os senadores da oposição agora alegam que não existem mudanças climáticas.

Quer dizer. Mal há novidade no fato de que economia ruim é pré-condição para indisposição política, e ainda assim é espantoso como os políticos são capazes de errar repetidamente nisso. Não em perder o passo da economia, porque mantê-la crescendo continuamente sem crises nem recessões é impossível, já ensinam tanto a teoria quanto a mesma história. Mas em ver que a economia vai perder o vigor e ainda assim continuar acomodado na confiança demais a si mesmo.

E de Karl Marx a James Carville se sabia disso. Marx compreendeu que as revoluções são um curso natural de processos históricos quando se esgotam. Carville foi o assessor político responsável pela campanha e vitória de Bill Clinton sobre a tentativa de reeleição de Bush-pai em 1992. É creditado a ela o insight – “é a economia, estúpido”. Reza a lenda – e de fato aparece num canto de imagem de um documentário sobre a campanha – que Carville mantinha na sede democrata um quadro escrito com algumas palavras de ordem para serem lembradas sempre pela equipe, sendo o “it’s the economy stupid” uma delas.

the economy1 the economy2 Não poderia ter dado mais certo. Não fosse a estratégia de colar no candidato à reeleição os problemas da recessão do começo daquela década, os picos de desemprego e um aumento de impostos para cobrir o déficit crescente, Clinton dificilmente teria conseguido derrotar o adversário que, poucos meses antes do início da campanha, navegava nos mísseis da Guerra do Golfo com 80% de aprovação.

A moral disso tudo é que você pode até tentar explicar para os outros que não votou no Bush porque era contra a invasão do Iraque. Provavelmente fosse verdade. Mas, ao que parece, tudo se amplifica quando o problema bate no bolso. Mesma razão pela qual você também daria a reeleição a Clinton quatro anos depois, só que ao contrário: os anos de Bill foram os melhores para a economia americana desde a década de 60.

E não há nada de errado com isso. É esta aliás a grande função de qualquer Estado. Prezar pelo bem estar da população que o elegeu ou, no caso dos governos autocráticos, que o permite se manter ali pelo simples fato de ainda não ter se rebelado.

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