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Forças ocultas

9 de dezembro de 2015

Juliana Elias

Nos 69 anos desde 1945, fim do Estado Novo, o Brasil teve 16 mandatos presidenciais (considerando-se por mandato o período previsto por lei para o início e o fim da gestão corrente). A duração prevista dos mandatos variou de quatro a seis anos.*

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Revolucionários de bolso

7 de abril de 2015

Juliana Elias

diretas ja

Campanha pelas Diretas Já, em 1984

O país está uma bagunça. Dos quebradores de bancos às paradas pelo impeachment, algo acontece desde junho de 2013, quando os primeiros estudantes angariaram uma multidão nacional contra um aumento de passagem, que as pessoas parecem subitamente determinadas a resolver todos os problemas brasileiros de uma vez.

Teria um súbito senso de justiça assolado a população? Teriam agora esses problemas – transporte? corrupção? violência? saúde-educação? – atingido o limite do intolerável, como se de fato existisse um limite abaixo do qual os mesmos problemas pudessem existir sem serem igualmente intoleráveis? Ou seria mesmo apenas uma questão de tempo até esgotar a paciência?

Pode ser. Mas eu arrisco uma outra explicação: o bolso. É como se o panelaço contra a corrupção ou a reivindicação por transporte melhor fossem apenas o detalhe da foto, e um “zoom-out” que pegue o quadro completo mostra com facilidade que há um padrão que se repete em todas as revoluções, mesmo que as bandeiras de cada uma sejam completamente diferentes ou até opostas. E essa semelhança está diretamente ligado às condições econômicas do país e, portanto, à qualidade de vida das pessoas.

E eu desenhei.

pib per capita x revoluções

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O gráfico mostra a evolução do nosso PIB per capita cruzada com as principais rupturas da história política nesse período. A série foi extraída da base oficial de dados do Ipea (para encontrá-la, busque por “PIB per capita a preços de 2013”). É como se expandíssemos o zoom dessa fotografia de 2015 para até 1901. A conclusão é duplamente verdadeira: não há grande mudança política que não tenha acontecido no rastro de uma queda na renda, tanto quanto não houve período minimamente prolongado de queda na renda que não tenha levado a uma mudança na ordem política. Leia mais…

– Me ensina, por favor.

23 de junho de 2013

E então, não mais que de repente, num espaço intergaláctico de sete dias, o que era “vem pra rua, vem – pelo aumento”, tornou-se “vem pra rua, vem – contra o GOVERNO”. O nosso velho e bom “o povo unido jamais será vencido” tinha se mutado para “o povo unido não precisa de PARTIDO”. E o que começou como um protesto pelo aumento do ônibus, em São Paulo, se espalhou pelo país todo, passou para uma espécie de grande movimento ecumênico abarcador de todas as indignações até, finalmente, descambar para um vale-tudo de vontades liderado pelo mote “FORA DILMA” aspirante a impeachment com viés de golpe.

Amparado, vá lá, por outros foras também – “fora renan calheiros”, “fora alckmin”, “fora ronaldinho” (oi?), “fora nome-do-politico-que-lhe-convier”! Mas ela, a presidente, é a maior, por força de lei. Então será também a maior, por força de protesto.

Bem, em eu não sendo nem contra a Dilma, nem contra o Haddad,nem contra o Alckmin, nem contra o Ronaldinho, (contra o Renan há restrições, vá lá), nem contra os partidos, nem contra a instituição de um governo, nem contra qualquer coisa que tenha sido formada, eleita e mantida no poder legitimamente – já incluindo discordâncias diversas que tenho a políticas e escolhas de cada um deles, todas dentro ainda do mesmo processo democrático -, voltei às ruas mais uma vez. Dessa vez, porém, não para protestar. Mas sim para tentar entender Leia mais…

A ticket to ride

10 de junho de 2013
Pq. do Ibirapuera, ponto de ônibus (março/2010)

Pq. do Ibirapuera, ponto de ônibus (março/2010)

Ok. Eu fui estudar. O aumento de 20 centavos, de R$ 3,00 para R$ 3,20, dado a ônibus, metrôs e trens da cidade de São Paulo no último 1º de junho, significa 6,6% a mais. A integração – quer dizer, quem pega metrô e ônibus seguidos – subiu um pouco mais: 7,5%, ou 35 centavos, de R$ 4,65 para R$ 5. Quem, portanto, está no pior dos mundos – ou seja, que usa a integração, duas vezes por dia, trinta dias por mês -, passa a gastar R$ 21 a mais por mês.

Bem. As tarifas, como bem sabemos, ficaram devidamente congeladas por dois anos até as eleições do ano passado, e não eram mexidas desde janeiro de 2011. De lá para cá, a inflação acumulada no país foi de 15% pelo IPCA, o índidce oficial do IBGE. Ou seja, com 15% mais, a tarifa já deveria estar custando R$ 3,45.

Isso nem considera o aumento do poder de compra, quer dizer, da renda das pessoas – justamente uma das principais coisas, além do tomate, que puxaram a inflação dos últimos tempos para cima. A mão de obra, pelo mesmo índice que subiu 15% em dois anos e meio, subiu 10% só no úlitmo ano. O salário das empregadas domésticas, graçasadeus, aumentou 11%. E os serviços – que incluem o boteco, o restaurante, a manicure, o encanador, o motorista e portanto a receita destes pequenos estabelecimentos todos – estão em média 8,5% mais caros que no ano passado, bastante acima da inflação total, que é de 6,5%.

O salário mínimo, que em janeiro de 2011 era de uma miséria de R$ 540, hoje é de uma miséria + R$ 138, ou R$ 678, ou 25,5% mais, ou três vezes o reajuste da integração. Isso significa que Leia mais…

Novelas, mulheres e idade

30 de janeiro de 2013
Avenida Brasil

Adriana Esteves, 42, como mãe de Cauã, 32.

Assistir novelas, quando você não é nem assíduo, nem grande potencial de público alvo do gênero, pode ser uma aventura.

Desde o advento da Internet, praticamente rompi o meu relacionamento sério com a TV e muito poucas vezes volto a ela desde então. Daí, talvez, me embasbacar com algumas coisas como se elas não tivessem estado aí desde 1500, acaso Pedro Álvares já tivesse trazido TVs para trocar por Pau-brasil.

Outro dia foi com uma ceninha boba da atual novela das oito (não vou nunca conseguir de chamar de “das nove”!), “Salve Jorge”. Nela, uma Cléo Pires estonteante de óculos escuros passeia pelo Leblon (com certeza era o Leblon) e tromba com uma espivitada Cissa Guimarães, numa ensolarada tarde de um dia de semana qualquer em que, naturalmente, nenhuma das duas tinha o que fazer (já notou como novela não tem diferenciação de dia de semana para fim de semana? Tanto faz o dia porque, salvo os personagens do núcleo pseudo-pobre que têm um bar – sempre tem esse núcleo -, ninguém trabalha. Homens são donos de empresas para onde nunca vão e esposas passam o dia à mesa do café, almoço ou lanche da tarde).

Bem. Cléo e Cissa, amissíssimas, optaram por passear pela praia do Leblon e sentar para tomar uma água de coco. Cléo, que na novela chama Bianca, tinha acabado de abandonar um marido e chegar da Turquia. “E por que?!”, pergunta Cissa. “Olha, teve uma hora que eu me vi me forçando a gostar de varrer uma casa!”, responde a linda e emancipada Cléo Leia mais…

Atenção, mundo: as crianças vão crescer

31 de agosto de 2011


O  vídeo foi feito no início do ano pela agência inglesa PHD. Intitulado “We are the future”, ou “Nós somos o futuro”, mostra uma série de crianças-pre-adolescentes falando, em resumo, que em 10 anos elas terão crescido e dominado o mundo (que é o que fazem, no fundo, todas as gerações com 10 anos de idade quando chegam aos 20).

Foi feito para ser exibido e discutido em congressos publicitários, mas acabou chegando às redes sociais e se dividindo entre encantar e horrorizar.

Encantar porque escancara sem nenhum melodrama juvenil (salvo a irônica musiqueta de fundo) a já chamada “geração Z” – nascida de 1990 pra cá e que  sucede a ainda nem desvendada geração Y (os jovens hoje de 20 a 30 anos).

Mas horrorizou pelo ar quase tétrico de suas criancinhas nem bonitas e um tanto inquisidoras na hora de apontar o dedo para os fazedores de marketing. “Nós não vamos apenas assistir seus anúncios, mas vamos esperar conteúdo inteligente e personalizado baseado.. em mim.. em mim.. e em mim!,” elas dizem. “E não ultrapassem os limites”, dizem ainda. “Ou então iremos te bloquear.”

O negócio ganhou até uma reposta irônica, com Tom Hanks, Penelope Cruz e tudo, Leia mais…

Titles – O moralismo e a incrível indústria da tradução de títulos de filmes

18 de agosto de 2011

Juliana Elias.
Com Carlos Valim 

Que o Brasil sempre foi um tanto quanto desastrado na hora de traduzir os títulos de filmes lançados aqui, todos já sabemos.

Dos anos 80 para frente, principalmente – quando não só o mundo ficou naturalmente cafona, mas também o cinema, misturado ao recém-criado videocassete, se popularizou como programa-pipoca de massa – foi uma enxurrada. Num misto de livre adaptação, licença poética e uma mania tupiniquim de explicar tudo, alguns se tornaram pérolas clássicas.  Casos como Loucademia de Polícia (ou só Police Academy, 1984), Apertem os Cintos o Piloto Sumiu (ou Airplane, 1980) e o imbatível Meu Primeiro Amor (que, quando chegou no My Girl 2, 1994, virou Meu Primeiro Amor 2! Oi?).

Mesmo os pretensos a sérios padeceram do mal, como o mirabolante Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977), Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003) e o coitado do Amor sem Escalas (Up in ther Air, 2009), que fez um monte de rapazes perderem um ótimo filme por acharem que fosse uma comédia romântica.

Bastante gente já escreveu sobre isso, como o CinePop, que arriscou um ranking dos melhores (ou piores, claro), e este quase-glossário com todas as livres adaptações e o que seriam suas traduções literais.Mas, pinçando um período anterior a isso, e de traduções igualmente autônonomas e infelizes – algo entre os anos 40 e 60 -, uma coisa nos chamou enormemente a atenção: um rançoso e insistentemente recorrente toque de moralismo. São títulos que chegaram aqui, sem nenhum razão de ser em sua origem, Leia mais…

Vinicius de Moraes e a corte do machista

18 de abril de 2011

Por Juliana Elias

Ele deixou o Rio mais bonito. Deixou o amor e a suas dores mais bonitos. Deixou o samba mais bonito e ajudou a inventar a bossa nova para deixar mais bonita também. Deixou Ipanema, Itapuã e a R. Nascimento Silva 107 mais bonitas. Até a Helô Pinheiro ele deixou mais bonita. Embelezou a boemia, o ‘cachorro engarrafado’ e uma simples banheira; a capoeira e uma casa de brinquedos, ou mesmo uma casa sem teto nem nada. Ele descobriu o Toquinho e nos apresentou o Tom Jobim. Enfim, Vinicius de Moraes deixou o país inteiro um pouquinho mais bonito.

Mas, sabendo do seu dom de deixar as coisas mais bonitas, foi especialmente espertinho com uma delas: o machismo.

É, porque ser machista é fácil, mas ser machista e, ainda assim, galante, não é para qualquer um.

Concordemos que não devem ser muitas as mulheres que negariam um versinho de Vinicius, que se incomodariam em ser musa inspiradora de um grande poeta ou de se sentir a coisa mais linda quando passa.

Mas se pegas por debaixo dos floreios de suas rimas, algumas das coisas ditas pelo escritor, compositor e diplomata perderiam muito do gracejo que o consagrou. A começar pelo clássico creditado a elee que, Leia mais…

E essa; Veja explica?

20 de março de 2011

De como a Veja copiou a Time, a Time copiou a Veja, ou ambas copiaram alguma outra coisa igual

A Veja é mesmo uma revista admirável, de conduta jamais condenável e princípios éticos bastante claros. Todos sabemos.

Dia destes, porém – pouco antes, no caso, do terremoto-tsunami que devastou o Japão na semana passada, explodiu o reator de uma das usinas do país e trouxe novamente à tona a discussão e o medo da energia nuclear -, estava eu pesquisando por razões outras os eventos do acidente na usina de Chernobyl, e me deparei com uma matéria um tanto intrigante da referida revista, publicada no mesmo 1986 do incidente na então ainda União Soviética.

Bem. Vamos por partes.

Esta era a capa da edição em questão. Mais precisamente, de 7 de maio de 1986 (o acidente havia acontecido no sábado da semana anterior, 26 de abril):

E este, o começo da matéria:

Na manhã de segunda-feira da semana passada, os engenheiros da usina nuclear de Forsmark, a mais moderna e segura da Suécia, não acreditavam no que viam. Uma inspeção de rotina nas roupas de seus 600 funcionários indicava a presença de níveis altos de radioatividade…

– Fosmark?! – pensei. – Não era Chernobyl?

Poucas linhas adiante, no entanto, ao melhor estilo detalhado e não-óbvio jornalístico, descobria-se que foi dali, dessa Fosmark, na Suécia, que saíram os primeiros alarmes de que havia uma nuvem de radiação vindo de algum lugar da Europa. Foi só horas depois do aviso sueco, e já dois dias passados da explosão, que o governo soviético admitiu e informou ao mundo que um incidente havia ocorrido na usina ucraniana de Chernobyl, na cidade de Kiev.

O texto completo – intitulado, ainda em tempos de Guerra Fria, “A explosão vermelha” – pode ser lido aqui. (Os mais preciosistas podem ainda folhear toda a referida edição no acervo digital da revista, um arquivo completo e totalmente aberto de seus 53 anos de vida e que, bem ou mal, merece a visita).

Para o azar da Veja, porém, a minha pesquisa naquele dia havia sido bastante completa. Logo depois de encontrar todo o tipo de informação de que precisava na matéria da publicação brasileira (muito boa, por sinal!), fui também checar o igualmente disponível acervo da revista norte-americana Time (outra, esta sim, que vale sempre consultar para o caso de qualquer pesquisa histórica do século 20. As matérias sobre Beatles nos anos 60, por exemplo, sobre as quais já escrevi aqui em outro post, são imperdíveis).

Pois bem. A capa da Time daquele mesmo maio de 1986, datada do dia 12:

Pegou?

Agora as duas junto, para ficar mais fácil:

Bem. Primeira moral da nossa história: a capa da Veja parece só uma versão tupiniquim da mais hermética, clean e direto-ao-ponto Time. (Além de ficarmos sabendo que, naquela semana, o segundo assunto mais importante nos Estados Unidos eram as viagens do presidente Reagan e no Brasil era um surto de dengue, claro.)

Até aí, tudo bem. Esta não foi a primeira, nem a segunda, nem a última vez em que uma revista brasileira – país de mercado editorial até hoje ainda incipiente em comparação aos grandes percursores norte-americanos e europeus – se inspirou livremente em uma similar gringa para fazer seu trabalho artístico.

Qual não foi minha surpresa, no entanto, quando, ao começar a leitura, uma mesma palavra me chamou a atenção: “Fosmark”, a intrometida usina sueca!

Daí para os próximos parágrafos, eu lia em choque, apenas em versão agora em inglês e um pouco mais estendida, a mesmíssima historinha, número a número e evento a evento, da usina nuclear da Suécia detectando que havia radiação vindo de algum lugar e logo mais o governo de Gorbachev admitindo que era de lá.

Segue o trecho (a matéria na íntegra está aqui):

The first warning came in Sweden. At 9 a.m. on Monday, April 28, technicians at the Forsmark Nuclear Power Plant (há!) noticed disturbing signals blipping across their computer screens (…) The engineers lined up some 600 workers at the plant and tested them with a Geiger counter: the workers’ clothing gave off radiation far above contamination levels. Clearly, something was wrong — terribly wrong.

Se relerem, lá em cima, o trecho que transcrevi da matéria da Veja, verão logo que se trata de um livre tradução não literal mas bastante parecida. Se, ainda, clicarem no link que postei para a íntegra de cada um dos textos, e lerem toda a primeira parte de ambas, verão que estão contando absolutamente a mesma coisa, apenas com as devidas diferenças de ordem, detalhismo e linguagem (já que, embora extensa, a matéria da Veja é ainda bem menor que a da Time e está devidamente adaptada ao seu público brasileiro bem menos leitor que o americano).

Ambas, nesta introdução, falam da tal da Fosmark fazendo o teste de radiação nos 600 funcionários; em Finlândia, Dinamarca e Noruega também detectando radiação em suas áreas; em todo o mundo esperando satisfação do lado leste da Europa (de onde estava vinha o vento), e, finalmente, do governo soviético informando um vazamento em uma de suas usinas seis horas depois (sim, precisamente seis horas, segundo as duas revistas).

Bem, é uma forma bastante peculiar para se começar uma matéria e ser apenas coincidência que duas pessoas em todo o mundo a tenham pensado igual.

De qualquer forma, se duas pessoas de fato o pensaram, dificilmente saberemos quais foram – nenhuma das duas matérias é assinada. Nenhuma, se quer, faz menção a ter usado algum material oficial, de divulgação ou de publicação parceira, como é comum hoje.

A impressão primeira que se tem, ao começar a ler, é de que o resto todo de ambos os textos será apenas uma versão português-inglês da mesma coisa. Li-os cuidadosamente, no entanto, antes de fazer qualquer acusação, e não são.

Ambas tem a mesma ideia geral (lembremos, estamos em um mundo que ainda tem muro de Berlim!): puxar a matéria mais pela falta de responsabilidade dos malvados soviéticos ao sonegar informações durante uma crise de proporções internacionais do que pelas causas, consequências e gravidade do acidente em si. As duas, no entanto, correm por rumos próprios, encadeando uma ordem diferente de acontecimentos, citando exemplos particulares e destacando o que para cada um de seus países seria mais relevante.

A Time, por exemplo, passa um bom parágrafo explicando que as usinas norte-americanas usam tecnologias diferentes e portanto mais seguras. Já a Veja está mais preocupada em dimensionar coisas como dizer que a nuvem de radiação que saiu da Ucrânia e chegou até à Itália equivale a uma área “que vai de São Paulo ao Ceará”.

De qualquer forma, ora aqui ora ali, há trechos que, se não se repetem integralmente, parecem bastante similares nas informações que prestam. Alguns exemplos:

VEJA
…Os soviéticos diziam precisamente o contrário. Desde o momento em que admitiram o desastre, fixaram-se na versão de que o problema fora controlado, com a perda de duas vidas e a existência de 197 feridos.

TIME
The Soviets went further. In a three-minute news brief on TV, an announcer said: “Some news agencies in the West are spreading rumors that thousands of people allegedly perished during the accident. It has already been reported that in reality two people died and only 197 were hospitalized.”

Ou:

VEJA
“É inaceitável realizar um programa nuclear com padrões de segurança tão baixos”, protesta Birgitta Dahl, ministra da Energia da Suécia.

TIME
Said Swedish Energy Minister Birgitta Dahl: “We shall reiterate our demand that the whole Soviet civilian nuclear program be subject to international control.”

Ou:

VEJA:
Numa declaração surpreendente, o segundo-secretário da embaixada russa em Washington, Vitaly Churkin, reconheceu que “é evidente que o problema não foi resolvido e, teoricamente, representa uma ameaça para as pessoas na União Soviética, mas nós estamos tentando controlar a situação“.

TIME:
In a deft and tough- minded performance, Vitali Churkin, second secretary of the Washington embassy, offered little new information but acknowledged that the crisis was not yet over. “Definitely there has been an accident which has not been liquidated yet and theoretically poses a threat to people outside the Soviet Union,” Churkin said. “We are still trying to manage the situation.”

Ou:

VEJA:
Contrastando com a serenidade da burocracia russa, ouviam-se sinais de desespero vindos de Kiev. “Você não pode imaginar o que está acontecendo aqui, com todas essas mortes e o fogo“, disse um radioamador soviético a um colega japonês. “É um verdadeiro desastre. Milhares e milhares de pessoas estão fugindo. Eu estou a 30 quilômetros de distância da usina e não sei o que fazer”, dizia o russo, que foi ouvido na Holanda pelo monitor de rádio Annis Kofman.

TIME:
On Tuesday, Annis Kofman, a Dutch amateur radio enthusiast, reported picking up a broadcast in which a distraught ham operator near Chernobyl announced that two units were ablaze and spoke of “many hundreds dead and wounded.” The man cried, “We heard heavy explosions! You can’t imagine what’s happening here with all the deaths and fire. I’m here 20 miles from it, and in fact I don’t know what to do”.

Não são muitos os exemplos além destes em todo o resto das matérias, mas já há novas morais da história que podemos especular:

a) A Veja copiou partes do texto da Time.

b) E por que não? A Time copiou partes do texto da Veja.

c) As duas copiaram as mesmas coisas de alguma outra matéria de jornal, agência de notícia internacional (se é que este conceito já existia no mundo pré-internet de 25 anos atrás) ou de alguma espécie de comunicado oficial que algum governo envolvido possa ter emitido naquela semana.

d) Ambas pesquisaram as mesmas coisas, entrevistaram as mesmas pessoas e selecionaram as mesmas frases para destacar.

Bem. Enquanto nem Veja, nem Time, nos dão uma explicação, pode escolher a sua alternativa.


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Cidade vazia, ônibus cheio

3 de janeiro de 2011
CPTM, Marginal Pinheiros. Sexta, 31 de dezembro, 17h


A imagem acima, embora pudesse servir de registro a qualquer seis-da-tarde de qualquer dia util da cidade de São Paulo, mostra um dos vagões do trem da CPTM na última sexta-feira – no caso, 31 de dezembro; poucas horas antes do foguetório nacional da virada de ano e, tradicionalmente, a semana mais vazia e atípica da capital.

Segundo a CET, o trânsito no momento em que meu esforçado celular fotografou este vagão – por volta das 17h daquele dia 31 – era de ZERO quilômetros. Isso mesmo. Em caixa alta. Z-E-R-O.

A mesma CET calculou também que, naquela última semana de 2010, pelo menos 1 milhão de carros tinham saído correndo da entediante São Paulo de final de ano. Em outras medidas, é quase 15% de todos os 7 milhões de automóveis que entopem diariamente a cidade; ou uma Campinas inteira em carros deixando São Paulo.

A conclusão é: a megalópole fica vazia. Os bares sobram mesas na calçada, os cinemas somem com as filas, os bancos e as lotéricas agilizam o atendimento, até os shoppings e a 25 de Março esvaziam, e, claro!, vias como Rebouças, 23 de Maio ou Marginal ficam parecendo interditadas para a filmagem de algum Ensaio Sobre a Cegueira de tão irreconhecidamente livres que ficam.

Tudo, tudo em São Paulo é vazio. Menos o transporte público!

Bem. Imaginem vocês que o sujeito tem que se esforçar bastante para – com 15% a menos de carros, mais um bocado de milhões de pessoas pra fora com eles, e, arrendondemos, uma boa metade da população economicamente ativa não tendo que se deslocar para trabalhar – conseguir ainda lotar um ônibus, ou um vagão de trem. Um trem destes, vale lembrar, consegue carregar até 1.800 passageiros, segundo o orgulhoso discurso do estado quando da modernização das linhas. Onde é que foi que, num fim de tarde de 31 de dezembro, a CPTM achou 1.800 pessoas pra encher um trem?!

Av. Rebouças. Sexta, 31 de dezembro, 16h

Ônibus na Av. Rebouças. Sexta, 31 de dezembro, 16h.

A pergunta, naturalmente, é retórica, já que a resposta é fácil e a lógica comercial até que compreensível. Menos gente? Menos ônibus! Claro. É o que, por fim, fizeram os bares, os cinemas, os shoppings, as lojas da 25, os bancos e as lotéricas: fecharam.

Daí, na mesma semana em que o confortado indivíduo portador de seu veículo próprio, não-colaborador do trânsito e do meio ambiente, goza da rapidez de cruzar uma 23 de Maio em menos de 20 minutos; o pobre cidadão que, por opção, ou por falta dela,  utiliza o transporte público, passa os mesmos 20 minutos simplesmente parado, de pé – com sorte em um ponto que tenha teto, com azar em um postezinho fincado em uma calçada erma qualquer; com sorte saudável, com azar, idoso, deficiente ou grávido -,  só esperando seu ônibus passar para então sim dar início ao trajeto.

CPTM, Marg.Pinheiros.

Há que se ressalvar, a despeito da provável opinião das 28 empresas concessionárias que administram as linhas de ônibus da cidade, que o sistema de transporte público reserva algumas diferenças bastantes essenciais com relação a um bar, um cinema, um shopping ou um banco. Já pensou?! “Dia 1 tem pouquíssima gente na cidade, não abriremos as estações de metrô”; ou “hoje os ônibus ficam na garagem”.

O transporte é um direito e um dever públicos, tanto quanto uma delegacia ou um hospital: “- Alô 190?, estão fazendo um arrastão no prédio aqui da frente” – “Me desculpe, senhor, mas a próxima viatura só sai da base em 20 minutos”. Ou então, o senhor cidadão que se acometeu de uma sinusite, ou que despencou da escada, ou foi atropelado por um caminhão, chega ao pronto socorro, às 17h de um 31 de dezembro, e a atendente lhe fala: “O senhor terá de aguardar. Como 15% da população viajou, reduzimos a equipe à metade e os médicos só estão atendendo de 20 em 20 minutos.” Então, o médico, sentado na sala ao lado, como um ônibus parado no ponto final, conta até o vigésimo minuto da chegada do paciente, e só então levanta-se para atendê-lo.

R. Augusta. Quinta, 30 de dezembro, 15h.

A meu humilde e revoltado ver, é o equivalente a isso que se vem fazendo nas linhas de ônibus, ou de trem, na sexta maior cidade do mundo.

No famigerado 31 de dezembro, por exemplo, em que 15% da frota de carros, e portanto uma porcentagem ligeiramente semelhante da população, deixaram a cidade, a SPTrans informou protocolarmente em seu site que a frota de ônibus estaria reduzida – só que em 50%. Uma leve desproporção, não acha, SPTrans?

É um atendimento bastante preguiçoso para um serviço que estaria 11% mais caro em poucos dias. Segundo a prefeitura, e seu excelentíssimo commander-in-chief Gilberto Kassab, já no 5º dia de 2011 a tarifa do ônibus vai subir dos atuais R$ 2,70 para R$ 3,00 – exato um ano depois de já ter saltado dos R$ 2,30 para os referidos R$ 2,70 (ou 30% no ano completo).

Os reajustes, das mensalidades de escola ao minério de ferro, sempre têm lá suas justificativas. Prefiro preterir a discussão dos 30 centavos a mais em função da qualidade – se a preguiça flagrada na última semana do ano (em que não peguei um único ônibus pelo qual não tivesse esperado 20 minutos e no qual não tivesse que ir apertada) fosse tão atípica quanto a trégua no trânsito paulistano, desembolsava quantos R$ 3 fossem necessários.

O abuso da boa vontade do cidadão, no entanto, é uma regra. Quanto mais tranquila estiver a cidade para rodar com o seu carro, mais trabalhoso será o ofício do tomador de transporte público. Fica, será, a mensagem implícita da prefeitura, para quem o colapso das vias não deve ser um problema – “compre um carro”?

Parque do Ibirapuera. Março, domingo, 15h.

Após perder, estimemos, 1h40 da minha vida apenas nas esperas de ônibus naquela semana (média de 20 minutos por dia útil), tive a curiosidade de ligar nos órgãos devidos para exigir (ou ao menos sondar a funcionalidade) de meus direitos.

Fui ao Procon, que alguns dias antes me havia sido bastante solícito e eficiente quanto ao caso de um aparelho celular quebrado antes da hora.

– Alô, eu gostaria de fazer uma reclamação sobre o transporte público.
– Transporte público é com a SPTrans, senhora.
– Mas a reclamação é sobre a SPTrans.
– Também é com a SPTrans, senhora.

– Mais alguma coisa – não obrigada – o procon agradece.

E fica por isso mesmo.


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